Zéu Britto: Do Amor ao Humor

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Criatividade, humor ácido, uma dose de loucura e uma gargalhada única, fazem parte da personalidade de Zéu Britto

Começou como um menino esperto, que tinha uma sacada de humor para tudo que via. E hoje, como o próprio se intitula, é essa entidade Zéu Britto.  O baiano de Jequié/BA, ator, cantor, compositor, poeta e apresentador, iniciou a sua carreira em 1995, na peça teatral ‘Intimidades’. Também fez parte do grupo teatral ‘Los Catedrásticos’ e teve inúmeras participações na TV, cinema e teatro.

Em nosso bate-papo, Zéu Britto contou sobre as suas inspirações, o que o fez criar sucessos musicais lembrados até hoje, e como foi atuar em filmes e programas de TV. Confira essa conversa com o Fatos&Points.

 

F&P – Como surgiu o seu interesse pela atuação? Houve alguma inspiração ou incentivo familiar?

ZÉU BRITTO – Sempre atuei, desde criança, nos eventos socioculturais, na sala de minha casa, na paróquia de Santo Antônio e, principalmente, no colégio. Sem nenhuma referência ou incentivo familiar. Era uma vontade minha, incontrolável, de dar a própria versão dos fatos, brincar com os vários formatos de gente ou por puro exercício de psicanálise. Mas, não pensava em ser artista quando era pequenino.

 

F&P – Como surgiu ‘Soraya Queimada’ na sua vida? A canção foi baseada em alguma desilusão amorosa? 

ZB – A canção ‘Soraya Queimada’ veio quando comecei a compor. No colégio, eu fazia várias músicas e tirava sarro de tudo que via. Na época, me apaixonei por uma menina top de linha, linda mesmo, e fui rejeitado por ela. Aquilo não desceu goela abaixo, então fiz essa música, mas não mostrei a ninguém. Anos depois, virou tema de filme, programa de TV, peça de teatro e tocou nas rádios. Foi uma vingança completa! Exorcizou o sentimento (risos).

 

F&P – A irreverência nas letras das suas músicas é uma marca de sua carreira. Em 2011, você fez uma “homenagem” à atriz Cláudia Ohana em ‘Hino de Louvor às Raspadas’. Como é o seu processo criativo? 

ZB – Para mim, fazer música é um movimento de percepção, de passar adiante um fato, aquela velha história de contar um “causo”. Quando vi a Playboy da Cláudia Ohana me tornei compositor na hora (risos). Compus a música quando tinha 13 anos no colégio e, anos depois, ainda cantava no pátio da universidade. Minha sina sempre foi essa: o entretenimento. Mas, não esperava ver ‘Raspadinha’, anos depois, tocando e motivando roqueiros mirins.

 

“Minha maior fonte de inspiração é o ser humano. Gente é o ouro do artista…”.

F&P – Em 2005, você estreou no cinema no filme de João Falcão, ‘A Máquina’, e interpretou um doido. Para você, o que é a loucura e o quanto doido você é? 

ZB – Aquele foi um grande presente do João Falcão, o primeiro filme que fiz na minha vida, cantando a belíssima canção do Tom Zé ‘O Amor É Velho-Menina’. A loucura pode ser triste; no filme fazíamos loucos divertidos que ajudavam o personagem do Paulo Autran a fugir do hospício. E se eu te disser que já fui bem mais louco que agora? Quando comecei a carreira, ainda nos ‘Catedrásticos’, na escola de teatro, eu era louco de pedra e experimentava com códigos corporais, vivia com o violão para cima e para baixo, tinha tiques nervosos surreais e fazia pegadinhas dramáticas em ônibus. Tenha medo! (risos) Mas era tudo loucura criativa com final feliz.

 

F&P – O seu álbum ‘Saliva-me’ é um convite ao escracho e à gozação. Como foi a seleção do repertório?

ZB – ‘Saliva-me’ foi um projeto muito forte mesmo. Nasceu como um disco de estúdio, em 2005, produzido por mim e André Moraes, com todas as músicas que entraram em filmes, peças de teatro, programas de TV; enfim, era um ‘The Best Of Zéu Britto’. Aí, depois de cinco anos, saiu o DVD desse projeto, lançado pelo selo Coleção Canal Brasil e MZA, e produzido pela minha produtora Urubu Rei. Foi um momento emblemático. Convidei a incrível Ivete Sangalo, amiga por quem tenho uma enorme admiração, para cantar ‘Brega de Leila’; Maurício Baia para cantar ‘Interesseira’, além da honra que tive de ter André Moraes nas guitarras. O repertório englobava novas investidas como compositor, poemas que costuravam as canções e o clássico de Sinhô ‘Gosto Que Me Enrosco’, que entrou como abertura do seriado ‘Sexo Frágil’, em 2004, numa leitura vibrante.

 

F&P – Cinema, teatro ou música? Qual desses meios te desafia mais e por quê? 

ZB – Tudo é desafio e com o passar do tempo estou ficando mais rigoroso comigo mesmo. Já fiz muita coisa, trabalhos em segmentos diferentes, aos quais, para desbravar cada um, precisei de muita dedicação e estudo. Se não fosse assim, como apresentar um resultado satisfatório? E, como passar pelo crivo de grandes profissionais? Sinceramente, gosto de tudo e não temo nada. Não existe um desafio maior que outro, tem muita coisa ainda para experimentar; quem viver verá.

 

“Nada trava o talento verdadeiro, dê no que der e seja o que for”.

F&P – Você contribuiu com trilhas sonoras para filmes. Dentre eles ‘Lisbela e o Prisioneiro’ e ‘Meu Tio Matou um Cara’. Quais são os desafios de projetar numa canção uma personagem específica?  

ZB – Nessa seara teve caminhos diferentes, porém com prazeres parecidos. Em ‘Lisbela e o Prisioneiro’ fui convidado por André Moraes e João Falcão para interpretar a canção ‘Dama de Ouro’, do forrozeiro Maciel Melo; cantei com grande alegria e satisfação. Já em ‘Meu Tio Matou Um Cara’, recebi o convite de Caetano Veloso e Jorge Furtado para cantar ‘Soraya Queimada’, por combinar com a história da personagem do filme. Em outros casos, a música é feita sob encomenda. O importante para mim é ajudar a contar o enredo, jogar um refletor sobre os fatos; adoro isso.

 

F&P – Como enxerga a corrupção que assola o país? 

ZB – Sinto um pesar enorme. A realidade é dura e não começou na semana passada ou no ano passado, é uma coisa rançosa do Brasil, que vai passando de pai para filho. É muito grande para mudar da noite para o dia. Só rezando, porque pelas vias “legais” ou pelo diálogo, pela passeata ou panelaço, a corrupção não vai deixar de existir.

 

F&P – Com qual ator/atriz você ainda deseja contracenar? Por quê?

ZB – Sou um privilegiado, pois contracenei com artistas incríveis que assistia na infância, em Jequié, como por exemplo, Renato Aragão; quando participei do programa do Didi voltei no tempo, foi emocionante. Entreguei um prêmio a Dercy Gonçalves, em Vitória-ES, ela já tinha 102 anos e demos uma bitoca (risos), foi um sonho realizado; Nicete Bruno, Glória Menezes e tantas outras estrelas… Não sei dizer com quem ainda desejo contracenar. Quero que venham mais e mais trabalhos incríveis e colegas brilhantes, axé e evoé…

 

“E se eu te disser que já fui bem mais louco que agora? […] Tenha medo! (risos) Mas era tudo loucura criativa com final feliz”.

F&P – Quais as lembranças da sua infância/adolescência em Jequié? O Zéu já era piadista desde pequeno?

ZB – Isso me dá muita alegria. Minha infância foi cheia de aventura, viajávamos todo ano á Itaparica, para ir veranear na casa de tia Gustinha. Que época sensacional! Fui morar em Salvador para fazer o segundo grau e aí virei essa entidade “Zéu” que todos conhecem. No intervalo (hora da merenda), juntavam rodas enormes para assistir os meus shows de humor, contava piadas e cantava minhas músicas. Alguns professores adoravam a resenha e pediam para eu cantar na sala de aula, por pontos extras (risos). Foi nesse período que defini que me tornaria artista profissional e viveria dessa forma o resto da vida.

 

F&P – E o ‘Retalhão’? Como dar vida aos textos de expoentes do teatro e da música brasileira? Qual era a principal característica do programa?

ZB – O ‘Retalhão’ foi uma missão difícil, pois tinha que costurar, ser âncora, tinha os pensamentos de Zé Celso, Aldir Blanc, Augusto Boal, Jorge Maltner e Ferreira Gullar… Foi ótimo. Aprendi a escrever, a usar um tom jornalístico, conheci o Brasil todo (teve um Retalhão em cada estado), convidei atores e comediantes talentosíssimos para participarem dos programas dramatúrgicos, e fiz grandes amigos no Canal Brasil. A principal característica desse programa era falar sobre qualquer tema, sem preconceito ou limitação de tempo, e ainda exibir curtas e clipes inéditos de toda parte do Brasil. Era um programa que dava espaço para novas manifestações culturais. Deixou saudade.

 

F&P – Qual é a sua maior fonte de inspiração? 

ZB – Minha maior fonte de inspiração é o ser humano. Gente é o ouro do artista; adoro observar fatos, aí, de repente, sai uma música ou uso para construir personagem… Ler um bom livro, assistir a um filme forte com um roteiro legal, também são fontes de inspiração. Estou sempre aberto ao mistério.

 

F&P – Deixe uma mensagem para o Fatos&Points.

ZB – Adorei participar da entrevista. Vou finalizar com uma frase que repito sempre, por achar relevante: “Nada trava o talento verdadeiro, dê no que der e seja o que for”. Espero que todos extravasem seus talentos e vivam como bem entenderem. Um grande beijo para todos!


CRÉDITO DA FOTO: ACERVO PESSOAL
imagem destaque: culturaagora.com.br

Entrevista original em Jornal Fatos&Points