Vale a pena viver?

Estamos na campanha do setembro amarelo, fantástico que tenhamos tantas frentes na tentativa de valorizar a vida e ajudar o próximo. O CVV (Centro de Valoração da Vida) é um exemplo disso: pessoasvoluntárias, disponíveis para escutar e ser solidárias. Contudo, há uma pergunta que nos intriga: Por que desistir de viver? Por que tem aumentado tanto o número de suicídios?

Uma pessoa a cada 40segundos comete suicídio, no mundo são 800 mil por anosegundo dados da OMS e a tendência é de crescimento. Esta organização prevê o aumento para um milhão em aproximadamente 6 anos. Vários são os motivos que levam ao suicídio: violência doméstica; uso de drogas;situação econômica, dados indicam aumento do suicídio entre a população que vive em pobreza extrema; doenças mentais; bullying;depressão – outro problema de saúde pública gravíssimo e que cresce impetuosamente, 15% dos depressivos, grau severo, cometem suicídio.

Houve aumento de casos de suicídio de mais de 10% entre os jovens considerando 2002 até hoje. E, pior, segundo a ONUBr,  na faixa etária entre15 e 29 anos, o segundo principal motivo de morte é o suicídio.O sociólogo Julio Waiselfisz em sua pesquisa relata que o suicídio teve um aumento de 60% desde os anos 80 do século passado. Os índices são alarmantes!

Algumas filosofias têm respostas interessantes, não pretendemos esgotar o tema e nem apresentar uma panaceia, o que seria uma tolice imensurável, mas acreditamos que precisamos caminhar em alguns sentidos, não podemos ficar inertes enquanto tantas pessoas sofrem e findam suas vidas…

O primeiro passo é nos disponibilizarmos, escutarmos isto porque as pessoas que estão buscando suicídio gritam por ajuda, do jeito delas, então, atentarmos para sintomas estranhos como mudança brusca de humor, ansiedade, agitação (insônia), desesperança, desmotivação, isolamento, ficar no quarto horas parece comum mas é preciso acompanharmos, muitos adolescentes, por exemplo, deprimem; tristeza exacerbada sem motivo aparente; palavras ou frases que expressem insatisfação com a vida como umatentativa de abreviar um sofrimento, coisas do tipo: “quero morrer”, não suporto mais tanto sofrimento”, “não quero mais esta vida”, “tudo parece cinzento”, “vou acabar com tudo” etc.;desapego, distribuindo pertences;organizar finanças, dentre outras.

Existe, ainda, um aspecto muito importante a ser observado:a melhora súbitano depressivo, pois pode constituir-senum disfarce para cometer suicídio. Neste caso, o depressivo não pode ficar sozinho e devem ser evitados os acessos a armas, a ferramentas perigosas, a substâncias com potencial de intoxicação e drogas. Um exemplo típico é sugerir uma viagem e matar-se nela, enfim, inventar um pretexto para tirar de perto as pessoas que, de alguma maneira, impedem que cometa o ato.

Não convém olvidar da ajuda do especialista, pois, quase sempre, esta tendência suicida pode estar associada a algum tipo de transtorno psicológico.Sabemos da dificuldade pois estamos cônscios de que nem todos têm as mesmas condições, em especial, num país onde a saúde,a educação e a segurança pública são relegados nem queremos ventilar a que plano,porém precisaremos de um esforço hercúleo para tentarmos ajudar a mantermos vivo àquele que amamos…

Muitos aspectos devem ser considerados para tentarmos melhorar o quadro do suicida,pensemos em algumas possibilidades e busquemos outras além das expostas aqui pois serão poucas devido ao nosso curto espaço. Não queremos ser reducionistas, contudo, diversos estudos convergem para este entendimento, inclusive nossas pesquisas: existir carece de sentido, precisamos buscar um encontro conosco para percebermos porque vivemos, qual o significado de estarmos aqui,porque estamos na nossa família, o que podemos contribuir no ambiente que convivemos.

Neste sentido, temos de buscar uma significância que vá além da superficialidade que nosso momento histórico de valorização da aparência: “nem ser, nem ter, parecer” vem nos condicionando. É, igualmente, cogente concebermos que o econômico é condição necessária mas não suficiente para o equilíbrio emocional e uma vida feliz, caso contrário não teríamos tantos suicidas nas classes altas…Numa sociedade líquida, como propõe Bauman, as coisas tomam uma valoração diferenciada, precisamos ressignificar para existir de forma saudável e, o mais importante,acreditarmos que podemos ser felizes.

Nosso modelo de sociedade capitalista predatório é responsável por muitas dificuldades, uma, que é expressiva, é nos condicionarmos ao sucesso e nos apavorarmos com a possibilidade do fracasso. Mas o que é ser bem-sucedido na sociedade que faz apologia ao capital? Pensarmos em valores outros pode ser o primeiro caminho para encontrarmos equilíbrio. Retomaremos este ponto com mais cuidado em outro momento. Atentemos para a ideologia envolvida no existir que fomenta apenas o capital, o econômico e como isso pode ser enfermiço.

Com efeito, ressignificar o sentido da existência pode ser um “princípio primeiro” para sairmos deste estado de coisas angustiante, depressivo e desesperador. A necessária procura do nosso eu maior, do nosso si mesmo, do autoconhecimento, da percepção de si, doAtman, do termo que quisermos usar que coincida com nossa crença ou conhecimento e nos permita amadurecer. Buscar os amigos, a família, alguém que nos importe, enfim, ofundamental mesmo é intentarmos ajuda, nem sempre conseguimos sozinhos sair deste estado perturbador.

Continuando nesta perspectiva, valoremos de forma diferente o que nos incomoda e deprime, visto que todos temos problemas, precisamos aprender a lidar com eles e com nossas questões íntimas. Um ponto que julgamos crucial na busca por nosso equilíbrio pessoal é pensarmos que qualquer que seja o problema, a fonte da resolução está em nós mesmos. Deixemos claro que não citamos questões político-econômicas, como as que ocorrem no nosso país, pois há um problema ético sério envolvido, que não será discutida neste texto.

O que estamos tratando é a forma de enfrentarmos os acontecimentos cotidianos e inevitáveis: as pessoas têm seus conflitos, nós temos os nossos, precisamos tolerar as diferenças para termos nossa saúde psíquica, vejamos: o que a outra pessoa faz é ‘problema dela’, não é uma perspectiva egoísta, mas não podemos mudar o outro. Sendo assim, o que nos cabe, efetivamente, é (trans)formar a maneira como defrontamos a alteridade, com os seus e os meus conflitos. Se tentarmos um distinto caminho talvez logremos êxito como perdoarmos, compreendermos que o outro sofre, que também se defende atacando, externarmos nossos sentimentos, enfim, lidarmos com os conflitos de forma saudável. Se nós sempre atribuirmos responsabilidade a tudo que acontece ao outro, nunca conseguiremos amadurecer e, por conseguinte, encontrar equilíbrio.

Temos clareza que este é um exercício constante de autopercepção e ressignificação. Os outros sentimentos já conhecemos bem: raiva, ódio, vingança, indiferença etc.. Tentemos algo diferente para nosso próprio bem.

Uma vez ouvimos uma metáfora e achamos interessante: ‘deixe passar, como uma porta aberta…’Isto significa não acumular com os devaneios e desequilíbrios da alteridade. Implica, do mesmo modo, pensarmos sobre as seguintes questões: se o que o outro diz é verdade, então, não há nada a ser feito. Precisamos aceitar e tentarmos mudar, caso seja possível, considerando que o dito incomoda. Caso não possa mudar, aprender a viver com de forma saudável. A outra possibilidade é o dito pelo outro ser mentira, calúnia, neste caso cabe perscrutar: como podemos resolver uma pessoa que tem problema de caráter?… Necessitamos ter lucidez e não perdermos o nosso bem mais precioso, a paz, por causa de alguém que é ‘assim’… Lembremo-nos de Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que fazemos daquilo que fizeram de nós”.  Respondendo nossa pergunta: SIM, Vale a pena VIVER.