Um Humano mais Humano que os Outros

O mundo não consegue parar de nos chocar. Pois é, os tempos são duros. Provavelmente, mais da metade da população mundial acreditava, há uma década atrás, que o mundo ficaria melhor com o passar dos anos e que uma nova fase de bondades se instalaria. Que engano! Nossa positividade nos induziu ao erro. O mundo é cada dia mais cruel e menos civilizado.

As medidas adotadas em decorrência dos horrores perpetrados na Segunda Guerra foram marcos para a evolução do processo civilizatório. A fase posterior ao nazismo nos trouxe a certeza de que o mundo não está dividindo em mais humanos ou menos humanos. A escravidão já nos permitiria essa constatação, mas o racismo nos cegou mais uma vez.

O mundo entrava, enfim, em uma nova fase: criação da ONU e suas diversas agências, a promulgação da Carta da ONU, da Declaração dos Direitos Humanos e o aparecimento do indivíduo como detentor de direitos no âmbito internacional. Sim! Estava estabelecida a necessidade da busca pela paz e a garantia dos direitos do ser humano, independente dos direitos garantidos a ele em seu país de origem ou de moradia.

Avançamos imensamente, foram quase setenta anos de produção legislativa intensa no âmbito internacional com o objetivo de criar parâmetros mínimos de civilidade no mundo. Com o tempo, no Brasil mais precisamente com o fim da ditadura militar, os parâmetros internacionais de direitos começaram a ser introduzidos internamente, tendo seu ápice com a constituição cidadã de 1988.

Tudo isso nos levou a acreditar em um mundo melhor. Eu acreditei! Contudo, nos últimos anos os ventos mudaram e parece que estamos voltando ao estágio que alguns humanos pensam que são melhores que os outros.

Guerras, violências e barbáries pipocam pelo mundo todo, as mais evidentes na África e Oriente Médio, mas uma legião se levanta para não permitir que milhares de deslocados, refugiados e imigrantes ingressem em diversos países “civilizados”. O levante de partidos, candidatos e ideologias de extrema direita, no Brasil e no mundo, nos leva a um caminho sem volta: um mundo onde alguns humanos são mais humanos que os outros.

 

Uma coisa é certa: a discriminação com estrangeiros, refugiados e migrantes é um grande retrocesso no marco civilizatório da humanidade.

Medida como decreto de do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que suspendia por noventa dias a entrada de cidadãos do Iêmen, Irã, Iraque, Líbia, Síria, Somália e Sudão e a entrada de refugiados por cento e vinte dias, impedindo ainda a entrada de refugiados sírios por tempo indeterminado, promove a discriminação, a intolerância religiosa, a desumanização de certos grupos populacionais – muçulmanos, no caso – e permite a restrição de direitos de parte da população mundial, desrespeitando normas e tratados internacionais que o país é signatário.

Suspenso por decisão judicial, além de afrontar as normas de direito, o decreto, assim como a ideia do muro na divisa com México, só reforça a ideia de que o mundo somos “nós” contra “eles” e deve ser considerada como uma representação do retrocesso que presenciamos no processo civilizatório.

Mas Trump não está sozinho. Na Europa, Argentina e até mesmo no Brasil, medidas que disciplinam a entrada de estrangeiros e refugiados tiveram suas normas alteradas, dificultando o ingresso de pessoas que buscam abrigo em países para fugir da perseguição, ameaça ou risco de morte em razão de discriminação política, ideológica, social, religiosa e de gênero.

O discurso de proteção do cidadão nacional chama muita atenção e ganha adeptos, principalmente quando se levanta a bandeira de proteção do emprego. Pessoas nascidas, criadas, educadas, que conhecem o mercado de trabalho e que falam a língua pátria de um país não deveriam estar preocupadas que estrangeiros, sem nenhuma destas características e “facilidades”, roubassem seus empregos. No mínimo, tal pensamento foge da lógica. Esse pensamento foge, inclusive, da lógica do mercado tão defendida pelos neoliberais.

Uma coisa é certa: a discriminação com estrangeiros, refugiados e migrantes é um grande retrocesso no marco civilizatório da humanidade. Que este período seja breve. Afinal, em um mundo que alguns pensam que são mais humanos que os outros e, por isso, seriam detentores de mais direitos que os outros, com o passar do tempo todos perdem de uma forma bem danosa. Todos perdem, mais cedo ou mais tarde.

 

 

 

Créditos da imagem: www.politize.com.br