SER FELIZ como PROCESSO FORMATIVO do SUJEITO

Hoje falaremos de algo diferente, mas igualmente importante para a formação do indivíduo em especial quando buscamos seu processo de autonomia considerando pathos e psyche, para tal, façamos uma breve digressão: Por que temos de ser doutrinados? Tenho me perguntado isso ultimamente com certa frequência. Qual o sentido de milhares de pessoas irem aos cultos, às igrejas, às palestras etc. para ouvirem alguém falando sobre ser melhor, sobre evoluir, sobre seguir mandamentos para sermos mais humanizados, mais fiéis, mais crentes, dentre outras coisas?

Às vezes acho tudo tão sem sentido… por que não somos pessoas decentes e pronto? Se fomos criados por uma divindade perfeita por que nos fez imperfeitos? Sei que a caminhada na filosofia e na teologia para responder tal questão é interminável, escreveríamos compêndios, não quero trazê-los aqui. Apenas pensei na possibilidade de não responder, é, como diz meu irmão: para que saber? Coloquemos mais esta questão no nosso caderninho de coisas para serem respondidas depois…

Então, foquemos em uma possibilidade: em alguns momentos, quando estamos nessas palestras, cultos etc., poderíamos nos dizer para utilizar essas informações para nos sentirmos melhor e desviarmos da tristeza, da aparente falta de esperança e alternativas, da melancolia e outras vertentes piores como a depressão, ansiedade e, para alguns, até mesmo o suicídio.

No somatório dessas palestras que assisti ao longo dos anos bem como de algumas leituras foi ficando claro o que Aristóteles asseverava quando dizia que o fim do homem é a felicidade. Quando era menina, uns doze anos, e li isto pela primeira vez, achei tão simples, coisa de criança mesmo (ou, talvez, a criança já vislumbrasse o que realmente importa), hoje entendo a complexidade e radicalidade desta afirmação. E mais, de forma didática, é como se ele dissesse que quando não praticamos atos que nos conduzem a este fim é porque ainda não compreendemos o que significa e não atentamos para a importância deles para a consecução da nossa felicidade.

 

Façamos uma trajetória ainda que com vieses, mas tentemos caminhar somente, levar a vida com leveza, somos muito exigentes conosco, desejamos muitas coisas e esquecemos de valorizar as que temos…

Parece verdade, precisamos vencer as vicissitudes da caminhada existencial e sermos felizes já, se postergamos nossa felicidade para um futuro próximo ou para quando adquirirmos algo ou alguém, estaremos distanciados do verdadeiro sentido de felicidade. Assistimos uma palestra recentemente sobre ser feliz que chamou atenção para nossa criança ferida. Eis aqui um ponto crucial: somos infantis na lida com nossa própria existência, com nossa forma de ver o mundo e nos relacionarmos com pessoas, coisas e ideias, buscamos pessoas perfeitas, momentos perfeitos, situações completas e perfeitas, mas, ao que parece, não iremos alcançar tão cedo esse grau de perfeição que exigimos normalmente no outro e nas coisas, nunca em nós mesmos. Caberia, neste contexto, um bom entendimento sartreano sobre a utilização da má-fé para consubstanciar o nosso existir e justificarmos as escolhas que fazemos e a responsabilidade que atribuímos à alteridade no processo decisório que, em geral, isenta-nos.

Sendo assim, precisamos conhecer, ainda, alguns aspectos da nossa alma que nos afasta da possibilidade de ser feliz: a raiva, o temor, o orgulho, a inveja, a vaidade (mãe de muitos vícios, pois gera o egoísmo, o orgulho, dentre outros), a falta de amor, o que deveria ser em detrimento do que sou (a não aceitação), a falta de compaixão, o não perdoar, enfim, existem diversos conteúdos que estão no nosso ser íntimo que nos impossibilita caminhar diretamente para a felicidade.

 

Ame e as coisas tomarão uma dimensão/proporção diferenciada. A alegria está diretamente relacionada a nossa capacidade de amar e viver de forma simples…

Façamos uma trajetória ainda que com vieses, mas tentemos caminhar somente, levar a vida com leveza, somos muito exigentes conosco, desejamos muitas coisas e esquecemos de valorizar as que temos, olvidamos de dar atenção ao simples e focamos no complexo que, por vezes, é só usar uma dissociação para deixarmos igualmente leve e simples ou para percebermos que não era assim tão importante.

Neste entendimento, talvez algo primordial seja modificar o foco do nosso pensamento, tem pesquisas hoje se debruçando sobre a compreensão que o pensamento é capaz de modificar a nossa organização biológica, isso significa que podemos somatizar menos doenças, por exemplo, e menos sofrimento com certeza. Há, também, maior facilidade para apreender quando estamos felizes e equilibrados.

A maneira como entendemos a realidade faz toda a diferença, lembre-se, como diz Boff, o ponto de vista é a vista de um ponto, então, ressignifiquemos, perdoemos, sejamos menos narcisistas, encaremos os fatos de forma leve, nós não somos o centro do universo, fiquemos atentos à necessidade excessiva de nos sentirmos amados que nos faz carentes e dependentes e, por conseguinte, infelizes. Não usemos nossas frustações como desculpa para sermos agressivo e magoarmos os outros, em especial, aqueles que dizemos amar.

Destarte, para aprendermos a controlar o egotismo precisamos entender que devemos desenvolver sentimento de uso e não de domínio das coisas, não podemos deixar que os objetos nos possuam ao ponto de nos tornarmos escravos dos bens materiais. Este comportamento infelicita e infantiliza. Desenvolvamos nossa maturidade psicológica para darmos a devida atenção ao que merece, para experienciarmos o ser feliz simplesmente, a maturidade, a leveza e, por conseguinte, sejamos aprendizes mais exitosos e nossa psyche e nosso pathos serão melhores compreendidos e nos auxiliarão na construção efetiva do nosso eu. Ame e as coisas tomarão uma dimensão/proporção diferenciada. A alegria está diretamente relacionada a nossa capacidade de amar e viver de forma simples: ‘Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho’ (Hanh).

 

 

Créditos da imagem: iconnectgyn.com