Sem lenço, sem documento e desterrado na própria terra

Primeiro foi a ideia de que o Brasil seria o celeiro do mundo. Isso começou pelo final da década de 1950 e se propagou mais acentuadamente nos anos 60 e ainda início da década seguinte. Foi aí que, sob a égide do governo militar, brotou a máxima de que era “gigante pela própria natureza”, como sugere o verso do hino Nacional.

Mas o gigante vive eternamente deitado no que considera “o berço esplêndido” enquanto seu povo vive à míngua. E, ainda sob o poderia militar, descobriu-se que o Brasil, que estava “à beira do abismo” dera um passo à frente (e ao invés de despencar), tornou-se “o país do futuro”…

Foi com esta configuração que os anos 80 assistiram a transferência do governo militar para a sociedade civil. A transição pacífica, todavia começou mal. O primeiro presidente eleito, o ex-getulista Tancredo Neves, sequer chegou a ser empossado. Morreu ante e consternou o País com sua morte anunciada ida após dia pelo noticiário da imprensa. Ocupou o cargo o vice José Sarney, a aquela altura, ex-aliado dos militares.

De lá para cá todos conhecem bem a realidade da qual fazemos parte. E aí se escancaram as diversas faces do povo que compõe esta suposta nação. E tornou-se comum apontar os políticos, por exemplo, como os corruptos. Mas os críticos de plantão esquecem que para haver corruptos é preciso haver corruptores. Sem corruptores não há corruptos. Afinal, a corrupção nasce com o corruptor.

E nesta etapa da historinha do Brasil os corruptores são os descendentes dos apaniguados do Brasil Colônia e do antigo império que hoje se trasvestem de empresários, de investidores e pseudocapitalistas. Os concentradores de riquezas e que impedem a transformação da economia pequena e frágil que vigora no país, compra os legisladores e os encastelados no Executivo e no Judiciário em detrimento do desenvolvimento da sociedade e do bem-estar social.

O Brasil não tem história. Ou seja, a história que conhecemos é igual à da carochinha. A real história não é contada a ninguém. A série produzida pela Globo que narra o conto de D. Pedro e da independência supera ridículo.

Sem história, sem identidade. Sem cultura e sem tradições. Daí a pobreza deste povo posto à margem de todos os processos. Ou, como disse Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, o “brasileiro é um desterrado em sua própria terra”.

Não há nenhum movimento autêntico nesta nação. Copiamos tudo. E muitas vezes copiamos para fazer errado. E rimos. E transformamos tudo em piada. Fazemos chacota da nossa própria miséria e “choramos de rir” da nossa desgraça cotidiana. Esta, talvez, seja a nossa cultura infeliz ou infeliz cultura.

E se somos desterrados na nossa própria terra, somos desnaturalizados. Apátridas. Por isso, é possível, não nos reconheçamos como povo, pois não nos aceitamos pelas diferenças individuais e culturais. Não nos vemos como brasileiros, mas como afrodescendentes, eurodescendentes, nativos, dominados e dominadores. Apropriadores de culturas alheias e que nos põe alheios ao que deveríamos ser (e somos) na verdade.