Relação com o existir

Desde a antiguidade, a interrogação mais presente em toda a história humana é, certamente, quem sou eu e qual meu real propósito nesta existência !?!. Esta é, sem dúvida, uma reflexão filosófica, entender o ser que somos e as possibilidades que são engendráveis deste processo de (re)conhecimento. Com efeito, talvez seja a mais árdua tarefa que o ser humano possa se debruçar e a mais efetivamente valiosa e proveitosa.

Todas as questões que nos rodeiam perpassam pelo entendimento deste ser que somos e de nosso sentido/significado no mundo bem como dos encaminhamentos que daremos de posse deste conhecimento. Jung diz que ‘só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar’.

A falta de sentido/significado no processo existencial desencadeia uma série de possíveis somatizações e desequilíbrios, sendo assim, convémencontrarmosmóbeis que nos conduzam a ressignificar o processo existencial para que este caminhar seja saudável e exitoso.

Seguindo neste entendimento, cabelembrar que vivemos uma época sui generis, o tempo da sociedade espetaculosa, a qual prima pelo parecer em detrimento do ser, o que, por si só, já é passível de desencadear sintomalogia.Esta condição nos conduz cada vez mais para fora, estabelecemos relações superficiais, tudo é muito passageiro, fugaz ou, como sugere Bauman, líquido. A velocidade com que as coisas se desmancham no ar gera vacuidade, um vazio existencial angustiante que nos solicita a todo instante novas experiências para o preenchermos, mas ele, restivo,alastra-se, domina e, se não estivermos atentos, adoece-nos.

Com efeito, a maneira como lidamos com o padrão normótico[1]de existir é efetivo agente condicionante. Esta relação de adequação ao estabelecido pode ocasionar, mais uma vez, sintomas. Os valores postos como naturalmente dados são, na verdade, resultado de uma construção ideológica que nos aprisionanum conflito entre o que realmente somos e desejamos e aquilo que é considerado aceitável pelo padrão normativo, numa linguagem junguiana poderíamos entender como algo próximo ao uso das personas.

Para começarmos nossa caminhada numa tentativa de melhoria da nossa angústia existenciale somatizações, carecemos de uma nova valoração dos nossos valores, isto porque eles já estão profundamente contaminados pelo apelo consumista, pela superficialidade das relações e efemeridade das coisas.

Para tentarmos dirimir ou, ao menos, amenizar este conflito é primordial que dialoguemos com este ser que somos e com nossos sonhos. Entender e aceitar nossa condição íntima, fará grande diferença neste processo curativo. Não estamos falando da‘síndrome de Gabriela’, mas da necessidade real e imperativa de termos contato conosco, de compreendermos nossas fragilidades, emoções, carências, desejos, enfim, nossa condição humana para que cônscios deste entendimento possamos empreender lograr êxito na construção de nossa real humanidade.

Proceder assim é imperioso para o desenvolvimento de um ego mais estável, autônomo e igualmente saudável. O Conhecimento e o (re)conhecimento de nós mesmo são imprescindíveis para compreendermos melhor a vida, nós mesmos, nossas relações e o significado deste existir. Como diz Blaise Pascal: ‘É indispensável conhecermo-nos a nós próprios; mesmo se isso não bastasse para encontrarmos a verdade, seria útil, ao menos para regularmos a vida, e nada há de mais justo’.

[1]Termo cunhado por Jean Leloup e Roberto Crema.