Política, políticos, Carnaval e Castro Alves

Vencido o Carnaval, os ânimos da população parecem ainda amortecidos pelo prolongado festejo momescos. A preguiça com que a cidade se move à espera do próximo feriado alongado revela o desinteresse do povo pelas questões que lhe são pertinentes, mas que não conseguem mobilizá-lo para o enfrentamento da realidade ameaçada pela sanha dos encastelados no Palácio do Planalto.

A situação contemporânea me remete a Castro Alves (1868), em seu célebre Navio Negreiro: “Existe um povo que a bandeira empresta / Para cobrir tanta infâmia e covardia! / (…) Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, / Que impudente na gávea tripudia? / Silêncio. Musa… chora, e chora tanto / Que o pavilhão se lave no teu pranto!”.

A inquirição do poeta soa tão atual diante da desgraçada situação à qual se condicionou a população alheada desde sempre quanto aos seus direitos não somente de cidadania, mas Humanos, conforme preconizados na Declaração Universal instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O governo investe raivosamente contra a sociedade para solapar-lhe os parcos privilégios que o Estado brasileiro permite ao seu povo. Não é somente a aposentadoria, um direito universal devido a todos aqueles que trabalharam e contribuíram para ao fim de determinado período possuir a condição de viver (e não, sobreviver), dignamente.

 

… o Carnaval serviu para prefeito e governador fazerem suas campanhas políticas às eleições majoritárias do próximo ano.

Há também a questão da sonegação fiscal do governo contra o trabalhador assalariado, isto é, todo aquele que ganha salário independente do valor que este alcance. A não aplicação de reajuste da tabela do Imposto de Renda anualmente tem feito com que o brasileiro pague cada vez mais este imposto, além de incluir cada vez mais quem menos ganha. Dois salários mínimos atuais já leva o trabalhador a ter que alimentar o Leão.

O povo também pena pela imposição de um salário mínimo que não cobre sequer o mínimo. Para tanto, o governo conta com a solidariedade do empresariado, inepto, que não entende que baixos salários não contribuem com o desenvolvimento econômico. Quem ganha salário mínimo não frequenta restaurantes, não vai ao cinema, não compra em supermercados. Ou seja, não pertencem e não atuam no mercado. Pobre Brasil!

Mas o Carnaval valeu a pena. Permitiu que o povo brincasse, como as crianças fazem, inconscientemente de que atirar o pau no gato, ainda que não o mate, é covardia e perversidade. Ou, de volta à realidade do mundo adulto, o Carnaval serviu para prefeito e governador fazerem suas campanhas políticas às eleições majoritárias do próximo ano.

E, enquanto se espera o tempo passar, relemos Castro Alves, cujos versos, escritos no século XIX, ainda descrevem tanto este Brasil do século XXI. “Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra / As promessas divinas da esperança… / Tu que, da liberdade após a guerra, / Foste hasteado dos heróis na lança / Antes te houvessem roto na batalha, / Que servires a um povo de mortalha!”.

 

 

 

Créditos da imagem: cidadesnanet.com/news/wp-content/uploads/2014/07/impostos_carga-1900x900_c.jpg