Personalidade dos encantos do Candomblé: Mãe Stella de Oxóssi

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Levar a vida com prazer e dignidade, honrando as origens do Candomblé, são marcas da ialorixá.

Uma personalidade religiosa relevante para a história da Bahia e do Brasil, a ialorixá Mãe Stella Oxóssi, recebeu o Fatos&Points em sua casa, no terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, e nos contou sobre a sua trajetória e vivências no Candomblé.

Movida pela sua espiritualidade, Mãe Stella segue a tradição religiosa herdada pelos seus ascendentes africanos, com dedicação e devoção às energias da natureza. É ocupante da cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia e já escreveu oito livros sobre a crença baiana, assim combatendo os preconceitos à religião. Em 2014 foi escolhida para ser a grande homenageada da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica). Confira esse bate-papo.

 

F&P – Nas comunidades Nagôs, a mulher tem um papel muito importante, diferente das outras sociedades e comunidades. Por quê?

Mãe Stella: Nas comunidades baianas, os descendentes de nagôs, seguem a tradição religiosa herdada dos africanos por nós brasileiros. Na época das comunidades nagôs, o homem e a mulher tinham papéis diferentes, cada um tinha o seu lugar. Nesse tempo a mulher não tinha oportunidades para trabalhar fora de casa e seus deveres eram com a família, a mãe da casa, a dona de casa. Então, por causa do bom desempenho da mulher em cumprir os afazeres domésticos, se pensou na figura feminina como a mãe do terreiro. Ficou sendo a mulher a matriarca, a mãe espiritual, a senhora que orienta todo mundo. Por isso, a mulher tomou um lugar primordial na crença religiosa no Brasil, e, principalmente, aqui na Bahia. O terreiro para nós representa a nossa outra casa, a nossa outra família.

 

F&P – Conte como foi a sua iniciação aos 13 anos. A senhora imaginava chegar tão longe, representando a sua crença?

MS- Nem por sonho, nem por brinquedo, nem por nada… Isso foi o efeito do destino. Para nós, descendentes de africanos, temos a questão religiosa como herança. Eu sou de uma família descendente de africanos, minha bisavó veio da África direto para a Bahia, aqui ficou e foi seguindo essa tradição. Como é herança, a pessoa mais velha morre e a mais nova sempre consegue herdar aquele lado espiritual da outra, e eu herdei da minha bisavó, da minha avó. Fui chamada aos 10, 12 anos e iniciei aos 14 anos aqui nesta casa, no Ilê Axê Opó Afonjá, e estou seguindo. O destino me trouxe e aqui estou.

 

“Devemos acreditar, ter fé no outro, porque só assim a gente se humaniza.”

F&P – Como a senhora define o terreiro? Existem semelhanças com uma escola ou uma universidade?

MS- Aqui é um novo mundo. É uma escola de vida. Aqui no Axé você aprende de tudo, a compreender desde o menor ato, que toda criança tem, até a conduta adulta: você aprende a ser pai, mãe, tia, porque é uma família enorme e mais forte do que a sanguínea, pois já é espiritual.

 

F&P – Como são realizadas as partes sociais e espirituais do terreiro?

MS- Cada coisa na sua hora. Na parte espiritual, para ingressar no Axé, você tem que ter espiritualidade. Então começamos com as iniciações espirituais e o batismo: o aprendiz recebe um banho e aula de espiritualidade, o que é ser espiritualista. Isso é necessário para poder entender porque nós adoramos as energias, os orixás, os fenômenos da natureza, desde o próprio sol à nossa respiração, e tudo que Deus nos deu. Já as partes sociais são as ações de colaboração com a sociedade: a escola, o museu; contribuímos com o meio sociocultural. E o social também se agrega ao espiritual, como os nossos rituais, quando abertos ao público. Nós, que estamos por dentro do métier, sabemos separar qual é a parte espiritual da social, mas para o visitante e o turista tudo é festa; eles veem uma yalorixá dançando e acham que é uma boa festa, mas, não, é um ritual.

 

F&P – Quais os cargos que os homens podem exercer no Afonjá?

MS- Como cada casa tem os seus dogmas e princípios, no Ilê Axé Opó Afonjá não é permitido ao homem ocupar um lugar de pai de santo. Aqui no Axé não tem babalorixá. O babalorixá pode ser iniciado aqui, mas ele só pode ser pai de santo na casa dele. O homem pode exercer outros cargos: tem a sociedade de Ôbas (criada por mãe Aninha), tem os ogãs, etc. Mas, o homem não pode ser ialaxé e, sim, teria que ser babalaxé. Eles não podem cozinhar, ou seja, não podem ser yabasé, pois é a mãe que é a dona da cozinha; não existe babasé, eu nunca ouvi falar. Apesar de existirem homens que cozinham muito bem, inclusive comidas de axé. Nada é proibido, mas aqui temos as divisões de gênero.

 

“O terreiro para nós representa a nossa outra casa, a nossa outra família. […] O destino me trouxe e aqui estou.”

F&P – O que a senhora acha da intolerância religiosa de certos segmentos sobre o Candomblé?

MS- Acho uma ignorância, uma falta de espiritualidade, uma falta de respeito e de conhecimento. Não se pode condenar algo que você não conhece. Então por que ser intolerante? Por que discriminar o outro irmão? Somos todos irmãos por Cristo, por Jeová, por Javé… Somos todos filhos de Deus: o preto, o branco, o indígena, o japonês.

 

F&P – Como foi a experiência de ser homenageada na Flica (Feira Literária de Cachoeira) em 2014?

MS- Eu, como ser humano, achei maravilhoso! (risos) Mas, pensando bem, isso é mais uma responsabilidade para a minha pobre cabecinha branca. Quanto mais homenageiam, mais aumenta o compromisso diante daquilo a que se dedica. É preciso se doar por inteiro, e a gente só leva a sério quando o coração bate forte/esquenta e a cabeça aceita. É uma coisa muito individual e ninguém forma ninguém para isso; pode-se instruir, dar uma orientação. Tem pessoas que dizem ser pai/mãe de santo, e é mentira, pois não acreditam, têm aquilo como uma fantasia, porque se veste bonito. A crença está dentro de nós.

 

F&P – Quando sentiu a necessidade de expor os seus pensamentos escrevendo livros? Foi um chamado?

MS- Todo o orixá chama, de diversas maneiras, mas uma coisa sempre ficou presa em mim e se traduz em um provérbio que li e diz assim: “o que a gente não registra por escrito, o vento leva.” O Candomblé tem diversas nuances e quem assistiu os primeiros africanos praticando a religião, não registrou e ficou no boca a boca; dessa forma pode ter havido alterações na essência daquela prática, com o tempo. Então, vamos aprender o máximo possível da forma correta e segui-la como deve ser, sem modificações, sem inventar mais nuances. O que não está escrito, nem registrado, o vento leva e muda. Resolvi registrar para não perder a essência.

 

“O que a religião quer é a espiritualidade que vem de dentro de você para servir ao outro. […] Religião é troca.”

F&P – Para a senhora, o que é comunidade?

MS- É isso em que nós estamos! Comunidade é um pedaço de lugar, onde todos comem, dormem, trabalham, sorriem. É comum para todos. Assim é o candomblé, um lugar formado por diversas pessoas, dentro de um lugar comum, com os mesmos objetivos.

 

F&P – Por que para a senhora religião não é profissão, mas, sim, vocação?

MS- Evidente que não se vive de Candomblé. Não aumenta as finanças de ninguém.  O único interesse é fazer aquilo que se gosta e estar por inteiro no candomblé ou na religião que você aceitar como sua. O que a religião quer é a espiritualidade que vem de dentro de você para servir ao outro. Nós crescemos muito, como ser humano; por exemplo: você mora aqui na comunidade, mas não tem dinheiro para comprar/construir uma casa, então, a comunidade lhe oferece uma casa; e qual é o pagamento que você faz? Nenhum, a não ser se doar também, como ao varrer o terreiro, ou cuidar dos animais, ou ir para a cozinha fazer uma comida. Isso é o pagamento, é troca. Religião é troca.

 

F&P – Qual é a programação anual do Ilê Axé Opó Afonjá, quais são os maiores eventos? E como se dá a visitação pelos turistas?

MS- Temos um calendário fixo e ao decorrer do ano fazemos algumas ações ligadas às necessidades da casa: começamos com o ciclo de Águas de Oxalá que são dois meses e meio, depois a festa para todos os orixás, em junho o ciclo de Oxóssi, e o ciclo de Xangô em junho/julho. Quanto à visitação temos as nossas normas, abrimos ao público para festas, onde realizamos rituais. Mas, não é ‘à la vonté’, é necessário se informar antes sobre o horário, a cor da roupa que deve vestir (no caso de Águas de Oxalá terá que vir de branco). Não é permitido tocar nas comidas, e nos assentamentos tem lugar para homem e para mulher.

 

F&P – Como a senhora vê Salvador para os próximos anos?

MS: Eu não vejo, eu sinto, eu penso, eu quero que Salvador evolua, que seja uma cidade gostada por todo mundo, mas que seja respeitada. Espero que seja uma cidade referência.

 

F&P – Deixe uma mensagem para os leitores do Fatos&Points.

MS- Quando você entrar em um lugar de fé, que seu coração esquente com profundidade. Que tenha compromisso com o bem e com a verdade, assim a gente sempre será abençoado. Devemos acreditar, ter fé no outro, porque só assim a gente se humaniza.

 

Créditos da foto destacada: 2.bp.blogspot.com

Entrevista original em Jornal Fatos&Points