Perigo na mesa: saiba quais são os alimentos com mais agrotóxicos no Brasil

Cada brasileiro consome, em média, cinco litros de veneno a cada ano, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Europa vive, atualmente, crise em razão de contaminação de ovos pela substância fipronil

Um alerta baseado na suspeita de contaminação de ovos com fipronil, um pesticida utilizado para eliminar parasitas das galinhas, foi lançado na primeira semana de agosto pelo organismo responsável pela segurança alimentar e sanitária da Holanda (NVWA). Países como França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Suíça e Suécia já foram avisados e milhares de aves tiveram de ser sacrificadas.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera o fipronil “moderadamente tóxico” para o homem quando usado em grandes quantidades e pode causar vômitos e problemas neurológicos se ingerido em doses elevadas. A substância está presente em vários produtos antiparasitários empregados em animais domésticos, como spray ou coleiras antipulgas. A partir de 30 de setembro a substância já não mais será vendida porque sua produção será suspensa.

Intoxicação

De acordo com o Inca, além da contaminação dos alimentos, da terra, das águas (que em algumas situações torna-se imprópria para o consumo humano), temos a intoxicação de seres vivos, como os mamíferos, peixes, aves e insetos. Regiões com alto uso desses produtos apresentam incidência de câncer bem acima da média nacional e mundial.

Em 2010, o mercado brasileiro movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do mercado global de agrotóxicos. Soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representam 80% do total de vendas nesse setor.

Risco à saúde

A pesquisadora e professora de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Bombardi, estuda o alto índice de agrotóxicos que consumimos no Brasil e os reflexos que eles representam para a saúde. A especialista observa que o agrotóxico mais vendido no Brasil é o herbicida glifosato.

“Se a gente pensar na quantidade de toneladas de glifosato que é vendido no Brasil, é grave. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) o glifosato pode vir a causar câncer. A gravidade da nossa permissividade é essa. Vejo como um atentado à saúde da população como um todo”, alerta.

Um estudo realizado por Bombardi em 2012 revelou que, no Brasil, houve uma intoxicação por agrotóxico a cada 90 minutos entre os anos de 1999 e 2009 – mais de 60 mil pessoas intoxicadas em dez anos. De acordo com a pesquisa, para cada notificação de intoxicação, outras 50 deixam de ser registradas.

Bahia

A Bahia foi o estado da região Nordeste que mais aplicou agrotóxicos nas lavouras entre 2007 e 2013 (45,9%), segundo dados do relatório nacional do programa de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, divulgado ano passado pelo Ministério da Saúde.

Sétimo maior consumidor de agrotóxicos do País (cerca de 56 milhões de quilos), o estado tem na região Oeste uma das regiões que mais utilizam esse tipo de produto, principalmente em lavouras de soja, milho e algodão. No período analisado pelo estudo, a Bahia aplicou em média 12 kg de agrotóxico por hectare de área plantada. Em todo o Nordeste, a incidência de intoxicações passou de 1,56 para 5,39 casos por 100 mil habitantes.

Brasil conta com programa  para recolher embalagens usadas de agrotóxicos. Descarte inadequado do produto pode poluir água e solo (foto: Arquivo / Gov. Federal)

Logística Reversa

Além da questão do consumo, outro ponto a ser observado refere-se à destinação adequada das embalagens de agrotóxicos pós-uso, uma vez que o descarte incorreto representa riscos ao meio ambiente, como contaminação do solo e da água, além da própria saúde dos seres vivos.

No primeiro semestre deste ano, o Sistema Campo Limpo (logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas) retirou das lavouras do Nordeste do Brasil 2.742 toneladas dessas embalagens. Essa quantidade corresponde a 12% do total destinado no País. Durante o primeiro semestre deste ano, 1.678 toneladas de embalagens foram devolvidas na Bahia, 7,1% do total nacional.

“O programa (de recolhimento de embalagens) se mantém como referência mundial. Com a integração dos elos da cadeia produtiva agrícola (agricultores, fabricantes e canais de distribuição, com apoio do poder público), estamos prontos para acompanhar as necessidades do setor”, destaca João Cesar Rando, diretor-presidente do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), organização responsável pelo Campo Limpo.

Fonte: Murilo Gitel, Correio
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