PALAVRAS são SEMENTES

Hoje quero falar sobre “o que falamos por ai!!!”…  A nossa sociedade é formada por conceitos que vão passando de geração em geração e cabe a cada  um de nós, trabalhar para criar novos conceitos. Falo, aqui, mais diretamente sobre as pessoas com deficiência que ao longo da sua existência muito vem fazendo para garantir seus direitos humanos e ter a sua cidadania reconhecida.

Aleijado, manco, ceguinho, retardado… MONGOLÓIDE!!! Conceitos que repercutiram negativamente na vida de muitas pessoas.

Historicamente a pessoa com deficiência vem sendo tratada como cidadão de segunda categoria, passamos por momentos históricos nos quais eram consideradas castigo de Deus na vida das famílias, em algumas sociedades as crianças com deficiência eram mortas ao nascer. Hitler mandou exterminar em torno de 250 mil pessoas com deficiência. E hoje, em pleno século 21 vemos pessoas insistirem na utilização de termos que induzem a morte social de alguns cidadãos.

Destaco aqui os indivíduos com Síndrome de Down, que ainda sofrem muitos preconceitos, inobstante vermos tantas pessoas com essa síndrome tocarem sua vida, como estudantes, trabalhadores, formando suas próprias famílias.

Quando classificada pela primeira vez pelo Dr. John Langdon Down, em 1862, os indivíduos que se enquadravam nessa classificação eram chamados de Mongolóides devido a sua aparência facial se assemelhar as pessoas oriundas da Mongólia, sendo considerados treináveis pelo médico que os classificou. E assim, no decorrer da história, o termo Mongoloide ficou associado aquela primeira população com Síndrome de Down que foi estudada e considerada seres sem autonomia ou mesmo desejos próprios.

A causa genética dessa síndrome só foi identificada em 1958, quando o Dr. Jerome Lejeune  descobriu um cromossomo a mais no par 21 nas pessoas que possuíam as características descritas por Down e assim, a síndrome foi denominada em sua homenagem.

 

Vamos rechaçar de uma vez a utilização de termos como RETARDADO ou MONGOLOIDE… levamos anos, construindo um novo conceito, para que os sujeitos com Síndrome de Down tenham sua auto estima elevada…

Sociologicamente avanços ocorreram, através de muita luta de movimentos sociais de defesa das pessoas com deficiência. Vimos o primeiro tratado de Direitos Humanos do nosso século ser dirigido à estas pessoas, denominado Convenção internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, no qual se reconhece que as barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais precisam ser vencidas para que todos possam ter o reconhecimento da sua cidadania.

No entanto, mudança de mentalidade social se faz não só com legislação, mas com empenho constante da sociedade mostrando a responsabilidade de todos em romper velhos conceitos para construir novos. E é preciso destacar que SIM… terminologia é fundamental, as pessoas com síndrome de Down já avançaram nas suas conquistas, estão em escolas regulares, escolhendo suas profissões, seus parceiros, amando, tendo filhos… muito ainda tem a ser conquistado, para tanto é preciso que todos estejam imbuídos nessa construção. Desde aqueles a quem chamamos de formadores de opiniões, profissionais que tem em suas mãos a fala que pode ajudar na transformação de vidas, até aquele que despretensiosamente acredita que sua fala não ecoa e não se entende responsável pela mudança social, todos têm o poder de fazer com que família e sociedade acreditem nos indivíduos com Síndrome de Down.

Vamos rechaçar de uma vez a utilização de termos como RETARDADO ou MONGOLOIDE… levamos anos, construindo um novo conceito, para que os sujeitos com Síndrome de Down tenham sua auto estima elevada, para que família, escola, mercado de trabalho acreditem que cada um, do seu jeito, tem habilidades e possibilidades de estar inserido no mundo, que o sol brilha para todos. Seja mais um nessa construção social, por uma sociedade mais fraterna que reconheça a diversidade de competências. Lembremos sempre “Palavras são sementes”.

 

 

Créditos da imagem: Tacila Saldanha em revistadmais.com.br (segunda “Caminha Down” no Parque do Ibirapuera)

SER DOWN por Lívia Borges

Assistente Social, membro da Ser Down - Associação Baiana de síndrome de Down.

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