O tráfico mora nas favelas, mas os traficantes não

“Os grandes traficantes brasileiros não moram nas favelas”. A afirmação é do jornalista e historiador inglês Misha Glenny, escrita no seu livro O Dono do Morro: um homem e a batalha pelo Rio (Cia. das Letras), no qual narra a história de Antonio Bonfim Lopes, o Nem, preso desde 2011, chefe do tráfico da Rocinha, a maior favela da América do Sul.

A constatação de Glenny conduz à questão principal sobre o tráfico de drogas: quem são, mesmo, os verdadeiros traficantes? Por que a mídia, a polícia e o Estado insistem em afirmar que os analfabetos Beira-Mar, Nem, Ricardinho 157, Zezinho de dona Maria, são os grandes traficantes? Que conhecimento eles têm para negociar internacionalmente (é preciso saber falar espanhol, inglês, italiano e quiçá russo ou alemão,) para adquirir, além das drogas, todo aparato bélico que hoje se disponibiliza nos morros de todas as cidades onde o tráfico está devidamente instalado. Além de traçarem estratégias semelhantes a táticas de guerra.

Quem mantém os traficantes (ou as mulas) nas cadeias com telefones celulares de última geração, computadores e tudo mais? Para onde vão os bilhões de reais do mercado da corrupção e como este dinheiro se multiplica senão com o financiamento de ilícitos? Antes eram apenas os banqueiros do jogo do bicho, agora ninguém sabe mais quem eram eles. Por onde andam esses investidores que lutam pela não legalização das drogas, pois a ilegalidade permite maior lucro, posto que o capital aparentemente não tem dono e livra os “investimentos” da pesada carga tributária que penaliza os brasileiros honestos.

Que tal a polícia investigar o Congresso Nacional? A casa é também conhecida como o paraíso da cocaína entre outras menos votadas publicamente. As assembleias legislativas, as câmaras de vereadores também não ficam atrás. Haja vista os representantes confessos do tráfico eleitos para a câmara de Salvador no último certame.

No seu livro, Glenny faz um exercício de exploração dos chamados cartéis das drogas mantidas nos morros do Rio e nas favelas de outras cidades. Mostra uma realidade desconhecida pela maioria dos trabalhadores brasileiros.

Aí a Globo apela à novelista Glória Perez para produzir um folhetim equivocado sobre o mundo do crime. O morro, na trama de Perez, torna-se o exemplo de realização para as classes menos favorecidas, pois é mostrado como o reduto do poder paralelo, onde os supostos grandes traficantes exercem as suas divindades egotistas capazes de decidir quem vive ou morre.

A novela equivocada traz para grande fatia da sociedade a ilusão de que ser mulher de bandido, ou ser bandido, é algo romântico. Estupidez. O discurso que afeta a sociedade desmoralizada, aética e corrupta, na qual os valores reais são desconhecidos e negados por todos. O Estado se exime porque tal discurso interessa à sua ideologia de poder, dominação e sodomização da sociedade. Inclusive daquela parte na qual o capital circula abundantemente. O crime, que antes não compensava, na visão de Perez e da Globo, torna-se objeto de desejo ou cobiça da sociedade posto que, naquele mundo, o dinheiro é abundante e fascina. Apesar de seu único valor ser o de mercadoria.

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