O salário mínimo e a miserável condição humana

O Brasil começa 2018 mais pobre ainda do que antes. O governo do descomprometimento social decretou o valor do novo salário mínimo, que o trabalhador recebe a partir de fevereiro, em R$ 954. Apenas R$ 17 a mais do que o valor pago até o mês passado. O percentual não repõe nem 10% do índice da inflação real registrada em 2017 e não cobre nem um quarto do botijão de gás vendido em Salvador, cujo valor alcança 10% do valor líquido do salário.

Da população total do país – 210 milhões de habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, 60% compõem a População Economicamente Ativa (PEA), o que corresponde a 126 milhões de pessoas. Desses, 45 milhões são trabalhadores que percebem mensalmente um salário mínimo, que não integram o público consumidor, e cerca de 35 milhões ganham até três salários mínimos, e formam o contingente dos ansiosos por fazer parte do grupo que vai ao mercado. A diferença (40 milhões de trabalhadores aproximadamente) responde pela sustentação do mercado. Ou seja, consomem.

Por isso a economia brasileira é tão frágil. Por isso a industria nacional não opera com 100% da sua capacidade produtiva instalada e chega, quando muito, aos 80%. Porque se sabe que uma grande parcela da população não consome, em alguns casos, nem mesmo produtos alimentícios.

O governo, com esta decisão, demonstra o descompromisso do Estado com o bem-estar do povo, aquele mesmo que responde pela criação da riqueza nacional, mas que não usufrui dela. Como se pode apreciar do Projeto de Lei Orçamentária Anual aprovado para 2018 com valor total de gastos de R$ 3,57 trilhões, e inclui a parcela do refinanciamento da dívida pública. O Orçamento tem como principal novidade a alocação de R$ 1,716 bilhão para o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), que vai custear com recursos públicos as eleições deste ano.

Aqui cabe uma ressalva. Não existe dinheiro público. Existe o dinheiro do contribuinte, ou seja, do cidadão economicamente ativo, inclusive os aposentados, e que deveria ser revertido em benefícios sociais, o que não ocorre, e não, custear a vigarice dos mandatários e inescrupulosos sujeitos cujos crimes são acolhidos passivamente pelos supostos poderes que formam o suposto Estado democrático.

Faltam médicos, equipamentos e medicamentos nos postos de saúde e nos hospitais públicos enquanto o governo destina R$ 1,7 bi para custear a eleição de bandidos, conforme o país assiste passivamente nos noticiários das emissoras de rádio e televisão, ou leem nos jornais e revistas que também se locupletam com a verba publicitária gasta pelos governos federal, estaduais e municipais, enquanto o trabalhador e a população carente e desassistida morre pela falta de atendimento nos ambulatórios.

É triste reconhecer que o sujeito está condenado à morte apenas por ser pobre e depender de um Estado que o ignora. É triste admitir que o assalariado mínimo tem um salário que lhe impedirá comer como comeu ano passado, que não cobre o reajuste do gás e da tarifa do ônibus, forçando-o a fazer horas extras a fim de poder assegurar a ida e a volta do percurso casa-trabalho-casa. Casa que jamais será um lar, em uma hipótese poética na realidade social destrutiva como a do Brasil.

“Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste”, diz o tresloucado poeta Olavo Bilac. Mas como amar, sem se ser masoquista, alguém ou alguma coisa que não nos faz bem, que também não nos ama? E sem dar explicações, o autor rima e enumera substantivos, que possuem características similares em qualquer lugar do mundo, para criar o discurso ideológico que constrói uma percepção demente da realidade: ”Não verás nenhum país como este! Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! A Natureza, aqui, perpetuamente em festa, É um seio de mãe a transbordar carinhos’.

Uma mãe madrasta e um pai (Estado) perverso e sodomita que se comprazem em ver os seus filhos na eterna senzala da casa grande entre gemidos de dores e os horrores da miserável condição existencial a que são e estão relegados.

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