O MEDO de nada MUDAR

Eis que o impeachment aconteceu. Para muitos, um verdadeiro golpe de Estado. Eis que o Brasil foi tomado por várias manifestações. Para muitas pessoas, essas manifestações não unem o país no momento de recessão e crise. Somente uma coisa é certa: cada lado só enxerga o problema pela sua lente. E muita gente tem a lente embaçada.

Vivemos um momento muito delicado. E não vivemos esse momento delicado apenas porque o feijão custa uma fortuna ou porque o preço do leite dói no bolso do brasileiro. Estamos vivenciando um momento delicado porque muitos mostraram sua verdadeira face. Diga-se de passagem, o Brasil não é a única nação vivendo esse momento delicado. O mundo vive uma crise – no sentido de ataque – conservadora, que faz estremecer qualquer ser humano com o mínimo de bom senso.

Eu confesso: tenho medo. Tenho medo daqueles que somente se informam pela grande mídia. Tenho medo daqueles que ficam quietos e deixam as coisas acontecerem. Tenho medo do velho que se traveste de novo. Tenho medo de quem é delatado na operação Lava-Jato e faz discurso contra a corrupção.

Agora, tenho muito medo mesmo é das autoridades públicas que, em nome de um discurso pela democracia, nos empurram garganta abaixo decisões ditatoriais e antidemocráticas. Autoridades de todos os partidos, de todas as carreiras. Vivemos em um mundo sombrio de discursos bonitos, mas de práticas esvaziadas. Vivemos em um mundo no qual os direitos mudam de acordo como destinatário. Acreditem! Esse é um mundo perigoso!

 

O nosso maior desafio é entender que somos um país formado por Nordeste e Sudeste, rico e pobre, empresário e trabalhador, comerciante e consumidor, para assim conseguirmos diminuir as desigualdades entre eles e construir um país forte e mais desenvolvido.

 

Os mitos e os líderes ganham popularidade à custa do medo do cidadão. Se a manifestação é do grupo #forapt, ela é linda e composta por cidadãos, porém se a manifestação é #foratemer, ela é composta por vândalos e militantes profissionais. Manifestação é manifestação, liberdade de expressão é liberdade de expressão. Não existe bonito ou feio, existe um “grito” que deve ser ouvido, considerado e respeitado. Desmerecer as manifestações que estão na rua em nada vai engrandecer este país. Ao contrário, só vai fragilizar ainda mais a democracia, que já anda bem capenga das pernas na nação brasileira.

Tenho medo daqueles que acreditam ser melhores que os outros no mundo. Vivemos em um país cuja Constituição Federal, lei máxima de uma nação, dispõe que um dos objetivos do Brasil é a erradicação da pobreza e da marginalização, e a redução das desigualdades sociais e regionais. No entanto, o orçamento enviado ao Congresso Nacional pelo governo Temer reduz drasticamente – melhor, radicalmente – os aportes destinados para diminuir o abismo social que exclui os mais pobres.

Sabem qual é o nosso maior desafio? Não é diminuir o preço do feijão, tampouco o do leite. O nosso maior desafio é entender que somos um país formado por Nordeste e Sudeste, rico e pobre, empresário e trabalhador, comerciante e consumidor, para assim conseguirmos diminuir as desigualdades entre eles e construir um país forte e mais desenvolvido. Os países que admiramos, os países nórdicos, por exemplo, não apresentam desigualdades sociais gritantes. Eles entenderam que todos fazem parte do mesmo “bolo”, do mesmo país. Mas no Brasil, enquanto o Sudeste se considerar melhor que o Nordeste, enquanto o branco se sentir melhor que o negro ou o índio, enquanto o empresário viver melhor que o trabalhador, não avançaremos em mudanças profundas. Isso porque talvez a mudança não esteja no impeachment, talvez ela esteja dentro de nós.

 

Créditos da imagem: macaibanoar.com.br