Notas secretas de um PAÍS de RUPTURAS

Imaginem se um extraterrestre tivesse passeado pelo Brasil nos idos de 2012 e retornado somente em outubro de 2016 a este gigante tropical? A surpresa seria tremenda. De país de bonanças e de conquistas econômicas e sociais nos transformamos no país da gastança generalizada. É, éramos um país feliz, ou quase isso.

Em 2012, um passado bem recente, acreditávamos que as desigualdades sociais poderiam ser minoradas. Acreditávamos que o suor dos nossos impostos poderia garantir um sistema único e universal de saúde e que a educação, após a sua universalização, poderia ser lapidada aumentando a sua qualidade. Acreditávamos que a universidade era para todos, pobres, ricos, negros e indígenas. Acreditávamos nas mudanças, na melhoria… e pagamos por isso.

Eu acreditava. E não acreditei sozinha. Parte do Judiciário acreditava, juristas e acadêmicos acreditavam. Vencemos julgamentos desprezando a reserva do possível e implantamos uma nova ordem de possibilidades de judicialização de direitos sociais. Eram julgamentos a favor da igualdade.

Acreditávamos em um mundo melhor. Preconceitos, racismos e homofobia nas redes socais eram reprimidos pelos próprios internautas. Lembra do caso da professora da PUC, que criticou um advogado pelos seus trajes no aeroporto Santos Dumont? Comportamentos segregacionistas estavam condenados e soterrados. Eles não cabiam mais em um país no qual a classe C representava dois terços das viagens de avião.

 

Um furacão passou em nossas vidas. O que era bom, ficou ruim. Desemprego e ajuste fiscal após as eleições de 2014 colocaram um país em compasso de espera para assistir à morte de moribundos.

A segregação não pertencia mais a um país onde as empregadas domésticas tinham direitos, horas extras, inclusive. Não podíamos pensar em racismo em um país no qual, em três anos, foram inclusos 150 mil negros nas universidades.

De repente, tudo mudou. Ou dizem que mudou. O país da prosperidade virou o país da gastança. Prosperidade ou gastança feitas com o suor dos nossos impostos. Um furacão passou em nossas vidas. O que era bom, ficou ruim. Desemprego e ajuste fiscal após as eleições de 2014 colocaram um país em compasso de espera para assistir à morte de moribundos. Logo vieram as mortes. Causa mortis: corrupção. Bem, é o que dizem, mas não houve autópsia. Restou o mistério da causa da morte, como em um roteiro dos grandes filmes de suspense.

Não existia mais o país da prosperidade. Não podíamos mais acreditar em um país mais igual, porque a igualdade não é para todos. Quem não tem dinheiro, não vai para a universidade. Foi com essa simplicidade que um deputado se pronunciou sobre o tema. Você concordou?

De repente, várias pessoas pararam de acreditar em um país menos desigual. Parte do Judiciário parou de acreditar. Parte dos acadêmicos, servidores públicos, autônomos e, principalmente, empresários deixaram de acreditar. Sob o manto de que todos temos que fazer sacrifícios, principalmente o pobre, a PEC 241 se coloca como forma de congelar os serviços públicos prioritários pelos próximos vinte anos. No mínimo, a população não pode aumentar e não podemos envelhecer. Estamos beirando a retirada, pelo Judiciário, de remédios destinados a pacientes de doenças raras, porque tais direitos oneram o SUS. Em suma, pessoas vão morrer, e tem gente achando que é normal.

Ninguém falou em acabar com as desonerações e isenções tributárias ou, ainda, em combater à sonegação. Afinal, alguém tem que “pagar o pato” – não era esse o lema? E quem “paga o pato” é o mais vulnerável, quem “paga o pato” é o ideal de um país menos desigual e tudo o que vem com ele. Depois não adianta gritar por mais polícia e segurança pública. O mundo não é dividido em compartimentos, igualdade e segurança pública andam de mãos dadas.

Com os novos tempos, muitas rupturas e uma nova ordem se instalando. Eu ainda acredito na igualdade. E você, sua crença é no igual ou no desigual?

 

Créditos da imagem: radiotomsocial.org.br/