Músico e instrumentista do blues baiano: Álvaro Assmar

MATÉRIA CONVERSAS COM FATOS&POINTS - crédito André Machado
Álvaro Assmar foi o primeiro a fundar uma banda de blues na Bahia, o Blues Anônimo.

Se existe alguém com propriedade para falar de blues na Bahia é o músico e instrumentista Álvaro Assmar. Em uma tarde, foi possível nos deleitarmos com histórias marcantes, como a do inicio da primeira banda de blues da Bahia, o “Blues Anônimo”, em 1989, fundada por ele.

Nascido em 1958, o músico de blues realizou cinco álbuns, dois DVD’s, e possuí um programa de rádio, o Educadora Blues, há mais de dez anos no ar, em Salvador. Assmar lançou, em novembro de 2011, o  primeiro álbum duplo da história do blues brasileiro, “Álvaro Assmar 25 Anos ao Vivo”, reunindo os músicos que fizeram parte desta trajetória. E já está trabalhando o seu mais novo CD, “The Old Road”.

Considerado um dos papas do blues baiano, Álvaro Assmar é nosso convidado da edição especial de Carnaval. Álvaro Assmar, no Fatos&Points. Yeah, Baby!

 

F&P – Como surgiu seu interesse pela música?

Álvaro Assmar: Meu interesse pela música surgiu com seis anos de idade, quando vi pela primeira vez os Beatles na televisão. Isso foi um impacto muito forte para mim. Eu era uma criança e não sabia tocar absolutamente nada, mas sabia que a minha profissão estava definida naquele instante, quando vi os Beatles tocando a música “I Wanna Hold Your Hand”.

 

F&P – Como foram suas primeiras descobertas musicais?

ÁA – Eu diria que, além dos Beatles, o Rock’n Roll de um modo geral. Beatles foi o start para o começo do meu encantamento musical. Naquela época existia a “Jovem Guarda”, que era um movimento mais próximo daquilo que eu curtia. Aí depois vieram os Stones, outros grandes grupos como o Herman Hermits, o Animals, os Yand Birds. Conheci todos eles, nos anos 60, através dos discos.

 

F&P – E o início da sua carreira solo?

ÁA – Tive que passar por duas bandas antes de me lançar, no ano de 1993, em uma carreira solo. Sempre me vi como parte integrante de uma banda, nunca como um artista solo que assinasse o próprio trabalho. As minhas primeiras atuações, em que eu cheguei a fazer parte, foram na banda Blues Anônimo – a primeira manifestação de blues na Bahia – e na banda de rock Cabo de Guerra, nas quais trabalhei ao mesmo tempo. Por razões musicais, deixei o Cabo de Guerra e tentei investir no Blues Anônimo. Passou o tempo e, por questão de sobrevivência, os demais membros do Blues Anônimo estavam indo para o Sul do país, mas eu acabei tendo que ficar em Salvador, pois tinha muitos vínculos aqui. Daí, fiquei só, e era preciso fazer algo. Foi aí que nasceu a ideia de fazer uma carreira solo.

 

“Eu era uma criança e não sabia tocar absolutamente nada, mas sabia que a minha profissão estava definida naquele instante, quando vi os Beatles tocando a música “I Wanna Hold Your Hand”.”

F&P – Blues ou Rock?

ÁA – Ambos, porque eu comecei primeiro ouvindo Rock’n Roll, para depois voltar à origem do processo. Eu percebia, quando ouvia Beatles, Stones, Derek and the Dominos, Cream, The Mothers, Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, que havia um blues embutido na estrutura harmônica e melódica daquelas composições. E comecei a perceber isso, quando tive a oportunidade de ouvir dois discos, que foram decisivos para que eu enveredasse de vez para o caminho do blues. O primeiro foi aquele disco antológico do Allman Brothers, o álbum ao vivo “Live At Fillmore East” (1971). Aquilo é uma aula de blues, principalmente de slide de guitarra – hoje meu trabalho é mais em cima de slide de guitarra – e o guitarrista Duane Allman foi a minha maior referência de estudo, além do guitarrista George Harrison, dos Beatles. Quando ouvi pela primeira vez Duane Allman, foi instantâneo, gostei logo de cara e aderi à linguagem de slide de guitarra por conta dele. E o outro disco foi o Derek and the Dominos, o ábum “Layla”, que na verdade era o pseudônimo de Eric Clapton, e os Dominos eram os integrantes remanescentes da formação do Delaney, Bonnie & Friends, em que Clapton chegou a fazer parte. Esse disco trazia, por coincidência, também a participação do Duane Allman, do Allman Brothers. Esses dois discos traziam muitas informações importantes para quem gostasse da ideia de seguir o caminho voltado para o blues. São mais de 40 anos que ouço esses discos e sempre tem uma cara de novo a cada audição.

 

F&P – Aos 17 anos, com sua primeira guitarra e a parceria do seu irmão Adelmo Assmar, o senhor formou a sua primeira banda. Como foi o processo?

ÁA – Aquilo foi uma descoberta que já havia sendo perseguida há muito tempo. Éramos adolescentes e, na época, existiam aqueles festivais de músicas no Colégio Maristas, onde estudávamos – sou muito grato a estes festivais do Maristas – e pela primeira vez, além de formarmos uma banda, nós tivemos o nosso primeiro contato com o palco, com a platéia que eram os nossos colegas. Então, aquilo tinha um sabor de novidade para nós e foi muito bom, porque fez com que déssemos um salto importantíssimo no conceito do que é ter uma banda, do que é fazer parte de uma banda, como é o processo de composição, como é um ensaio, como aprontar um show e a expectativa do show. O inicio foi um processo bem embrionário, mas foi muito importante para mim.

 

F&P – Engenheiro com alma musical ou um músico apaixonado pela engenharia?

ÁA – Fiz Engenharia mais por questões familiares. Meu pai – que Deus o tenha em bom lugar – era matemático e não suportava a ideia de ter um filho músico. Então ele tinha dois filhos músicos e achou que era coisa de adolescente, deixou meio que o ‘barco correr’, até certo ponto, mas a gente curtia realmente o que fazia. E aí, na época do vestibular, eu tinha feito dois testes vocacionais nos Maristas, um no primário e outro no colegial, e o resultado se verificou de forma idêntica: música na cabeça, não tinha como não ser. Em segundo lugar, Ciências Físicas, porque tive a influência da matemática em casa com o meu pai e eu tinha afinidade, gostava da matemática. Acabei pegando a segunda opção por causa do meu pai e das pressões psicológicas, de como vai ser o amanhã, como é que vai viver de música, enfim, aqueles sacrifícios que fazemos, porque todo pai morre de medo em relação ao futuro; quer dizer, quase todo, porque no meu caso, em relação ao meu filho, não tive isso. Meu pai tinha muito temor que eu seguisse direto para a carreira de música, sem termos universitários, até porque eu não tenho formação universitária em música, tenho em Engenharia. Como sempre fui muito ligado à família e sempre prezei os meus pais, fiz Engenharia; mas, não era o meu desejo, era mais uma vontade da família. No entendimento dele, embora eu ficasse ‘meio puto’, achava que estava fazendo o melhor para mim e eu compreendo a posição dele.

 

F&P – Em uma das recentes entrevistas de Carlos Santana, o guitarrista mexicano afirmou que a sua guitarra é uma extensão de seu corpo, da sua alma. Com o senhor existe o mesmo sentimento?

ÁA – Acho que todo guitarrista sonha em poder afirmar isso. Na minha leitura, o que o Carlos Santana quis dizer, é que para tocar uma guitarra não é só o tocar físico do instrumento; é o mais difícil, a meu ver, na profissão de um guitarrista: é criar um estilo, uma linguagem; e isso ele o fez muito bem. Só o Santana toca daquele jeito; embora muitos tentassem copiá-lo, não conseguiram copiar a legitimidade dele. No caso do Santana foi algo espontâneo que aconteceu no primeiro momento em que ele foi mostrado ao mundo, através do Festival de Woodstock. A apresentação dele foi brilhante, desde o inicio ele sinalizava que tinha que ter um barato dele, uma onda dele, pegando emprestada a cultura. Ele sempre trouxe a coisa mexicana da música latina com ele, o que foi um grande diferencial, porque ele realmente impôs uma linguagem, um estilo, e chegou até a desviar um pouco, fazendo uns discos com cara de pop americano; mas, no fundo, o fraseado do Santana é exatamente o que ele foi desde o inicio. Acho-o uma das maiores referências da guitarra elétrica na história humana.

 

“Gosto de música de um modo geral; música, independente do estilo que eu faço. Ouço de tudo em casa: música celta, hindu, do folclore de diversos países, sempre com elemento agregador de cultura e que amplie os meus horizontes em termos musicais.”

F&P – Como o senhor vê o cenário atual da música baiana?

ÁA – Vejo como um cenário em termos comerciais, na verdade, um grande pântano. Não vejo muito que se esperar, pois a música, enquanto instrumento de cultura, é apenas o reflexo do que é uma sociedade, e do que é o lugar. O que vivemos hoje, na Bahia – digo isso com muita tristeza – é o fruto de uma estatística perversa. Segundo o que dizem os estudos de pesquisas, li em algum lugar, a Bahia é a terceira população do Brasil, com 80% de excluídos. Quando você fala em excluídos, são pessoas que estão abaixo da linha da pobreza, porque não têm acesso a nada como: moradia, escola, alimentação; não tem recursos para dizer que são cidadãos, que podem viver com dignidade. A música que se faz hoje na Bahia é como uma ordem maior, perversa, de oferecer aos menos favorecidos só o que não presta, só lixo, pois não tem sonoridade, não tem letra, não tem música, não tem nada… É algo que só estimula o lado corporal, visto como um grande pólo de atração para o turismo sexual de estrangeiros, que utilizam as nossas adolescentes, muitas vezes crianças, que, por conta da sobrevivência, são obrigadas a se prostituírem muito cedo; algumas até por gosto, mas, a grande maioria, por falta de alternativa. A estrutura do Carnaval baiano é uma carapaça de entretenimento, mas, na verdade, é um dano social de proporções que, em minha opinião, são irreversíveis. Tudo passa por conta da educação. Quando uma população não tem educação, mesmo com tentativas de campanhas aqui e ali, você vai ter, digamos, uma manada de rinocerontes. É como se fosse um grande zoológico a céu aberto, onde as pessoas só têm instintos.

 

F&P – E as políticas públicas estaduais de fomento à Cultura, na opinião do senhor são satisfatórias?

ÁA – A meu ver, são inteiramente manipuladas. Eu sempre tive comigo uma idéia, na minha carreira solo: pelo fato de fazer blues na Bahia, de ser o primeiro a fazer e ainda continuar tendo destaque por conta do que eu faço, em manter o caráter independente, sem padrinhos, sem corromper ninguém com jabá de rádio, televisão, imprensa. Eu apenas faço o que tenho que fazer e nunca fui atrás de governo para fazer nada. Confesso que, no primeiro momento, eu levei fé, acreditei, e resolvi dar um crédito de confiança aos editais. Acreditei em uma analise imparcial, na lisura dessa avaliação, e então ofereci o projeto “Wednesday Blues”, o qual cheguei antes a fazer por cinco anos, mas foi interrompido pela falta de patrocínio. Minha proposta era que esse projeto fosse apresentado no Pelourinho, ao ar livre, com o objetivo de dar oportunidade a quem não tinha dinheiro para pagar um ingresso no teatro; pois, muitas vezes, o indivíduo se inibe de participar, porque mora longe, não tem como se trajar para frequentar um teatro, e isso gera um conflito social por conta da estrutura desigual e perversa que existe, no caso da Bahia. Entreguei um envelope, ilustrando os cinco anos do Wednesday Blues, com tudo documentado, com vídeos, áudios, fotos, inclusive os especiais que foram gravados pela TV Educativa – uma emissora do governo, ou seja, o Irdeb abraçou a ideia como sendo algo enriquecedor para a grade de programação local. E ele não foi contemplado, não sei exatamente o porquê. O Wednesday Blues é um projeto que trouxe para cá um intercambio de artistas de nome nacional do blues.  Aí, quando fui pegar o meu material de volta, estava lacrado do jeito que eu mandei. Então isso me deixou muito magoado, porque ele nem sequer foi visto por quem se propunha a ver e avaliar.

 

F&P – Quando quer relaxar, Álvaro Assmar escuta o quê?

ÁA – Eu gosto de música de um modo geral; música, independente do estilo que eu faço. Ouço de tudo em casa: música celta, hindu, do folclore de diversos países, sempre como elemento agregador de cultura e que amplie os meus horizontes em termos musicais. A partir disso, você pega uma influenciazinha de um determinado país, que pode desenvolver a sua própria idéia, apoiado naquele instrumento de cultura. Então, eu gosto da música quando é bem feita, quando tem algo a proporcionar. Não suporto a ideia da música analfabeta. Sempre tive mais afinidade com a música norte americana e com a britânica do que com a música popular brasileira. É uma coisa do ponto de vista meramente auditivo, não é questão de uma ser melhor ou de ser pior, e, sim, do que eu me identifiquei. Eu me identifiquei com a maior referência até hoje, que é os Beatles. A banda faz 40 anos que acabou, mas até hoje ainda é noticia, ainda gera uma esfera de interesse, sempre existe uma gravação rara. Posso citar nomes e bandas sensacionais como o Rolling Stones, Elton John, Paul MacCartney; artistas brasileiros como Gilberto Gil, que sempre mantém uma linha de nível de exigência musical, uma veia poética interessante. Não ouço música só como entretenimento e, sim, como agregador ao meu conhecimento.

 

F&P – Seu filho Eric enveredou pela carreira artística, hoje no “Eric Assmar Trio”. Houve diretamente uma influência sua?

ÁA – Eu tenho dois filhos: o Vitor, que é o mais velho e é Analista de Sistema; e o Eric, que é músico. O Vitor adora música, Rock’n Roll, de preferência o heavy metal. Fomos a um show no ano passado do Black Sabbath, na Apoteose, no RJ. Foi um momento emocionante, de poder dividir isso com ele, foi algo incrível, porque ouço Black Sabbath desde 1972 e é fascinante. Pude presenciar os adolescentes que estavam presentes na platéia, cantando as letras e vivendo um momento atual do Black Sabbath, sendo que o show era focado em um material antigo que consagrou a banda. Já o Eric foi quem, por alguma razão, desenvolveu uma afinidade pela música e quis ir mais fundo. Segundo ele, o Black Sabbath foi o que acionou o botão para que começasse a dar os primeiros passos na música. O primeiro riff que ele tocou no violão foi o “N.I.B”, do primeiro álbum do Black Sabbath (1970). A partir daí, colaborei na medida da demanda dele, apresentando referências legais para nortear o caminho que ele queria seguir. Assim, ele formou o seu conceito de música apenas com o exercício da audição, antes mesmo de saber tocar o instrumento. Quando partiu para o estudo do instrumento, ele já era dono de uma bagagem auditiva fantástica, e, normalmente, os garotos da idade dele não se dão ao trabalho de procurar essa aprendizagem para que possam desenvolver.

 

F&P – Na sua opinião, quais são os grandes desafios para quem vive de música, principalmente na Bahia?

ÁA – Primeira coisa é você tomar emprestado o que Geddy Lee, do Rush, disse uma vez em uma entrevista: “se transforme no seu maior fã, você mesmo”. Isso passa pela auto-estima, passa pela confiança, autoconfiança e por você acreditar no que você faz. Eu sempre acreditei que tinha algo a oferecer para quem gostasse de blues; nunca pretendi ser uma unanimidade, até porque toda unanimidade é burra, por isso que existem vários estilos, para que as pessoas possam exercer um pouco do seu livre arbítrio, escolher o que consumir; não só música, mas escolher uma roupa, em que restaurante quer ir, que carro comprar; e com música não é diferente. Música para mim é trabalho – faço a trilha sonora do entretenimento de quem compra os meus discos, meus DVD’s, e de quem vai aos meus shows.

 

F&P – Já imaginou um palco com Álvaro Assmar, Eric Assmar e um netinho? Três gerações dos Assmar juntos em um palco. Para o senhor, gosto musical deve ser passado pelas gerações de uma família?

ÁA – Se isso acontecer – não me atrevo a fazer previsões para o futuro – eu seria o homem mais feliz da terra, porque dividir com um filho e um neto, é um troço inusitado, não me lembro disso ter acontecido com ninguém. Se Deus me der essa graça, eu acho que teria que viver muito, teria que ser mais do que um homem centenário para poder isso acontecer. Não creio que seja tão possível. Não que Deus seja tão generoso assim ao ponto de me proporcionar essa alegria, mas se me proporcionar eu serei eternamente grato.

 

F&P – Qual é a sua mensagem para o Fatos&Points?

ÁA – Acho que é preciso que os baianos parem de depositar expectativas em instituições; nesse ponto, os punks deram uma grande lição nos anos 70: “faça você mesmo”. Se você quiser algo para si, para sua família, então arregace as mangas, meta a mão na massa e faça acontecer. Não espere por governos, não espere por promessas de campanha, de palanque, porque na verdade tudo que eles querem é enganar. Acho que os governos, principalmente os do Brasil, nos últimos oito anos tratam a delinquência como algo normal, algo usual. Todos se preocupam em justificar o roubo, o meter a mão no que não te pertence; é um país sendo rapinado por uma grande gangue organizada. Vejo isso com uma grande tristeza, porque eu não fui educado e preparado na vida para ver o que eu estou vendo hoje. Se o povo tiver um pouco de inteligência emocional vai precisar lutar pelos seus próprios quereres; na realidade, a grande maioria é sedada com pão e circo, para eles poderem fazer as barbaridades que fazem. As pessoas precisam de um pouco de conscientização, de fazer acontecer o que elas realmente desejam; e, em termos de música, o que vejo são meus colegas se prestarem a esse tipo de papel, por conta da sobrevivência, que é implacável, para deixarem de ser o quadro e serem a moldura.

 

Créditos da foto destacada: i.ytimg.com

Entrevista original em Jornal Fatos&Points