Mais um outubro rosa…

Necessitamos novamente conscientizar as pessoas que é preciso respeitar a alteridade. Numa sociedade patriarcal que ainda ‘cultiva certos valores’, vamos sempre carecer de leis para proteger aqueles que não são classificados como detentores de direitos efetivos.

Desde o patriarcado que a mulher era objeto de uso e troca do rei, na Grécia antiga não lhe era permitido andar ao lado do homem, ela andava atrás e por isso o uso da expressão que tem aí sua origem: “por trás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”. A mulher começa a ter seu espaço ‘mais’ respeitado faz pouco tempo, isto se pensarmos na realidade histórica e, sem dúvida alguma, precisou lutar muito, morrer queimada e tantas outras resistências, contudo, os números mostram que ainda temos muito a conquistar. Para corroborarmos tal assertiva é só verificarmos a diferença de salários entre homens e mulheres, a violência doméstica, estupros, assédios, o feminicídio etc..

Sendo assim, vejamos o resultado de uma pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizada em fevereiro de 2017 tendo entrevistado “2.073 pessoas, sendo 1.051 mulheres e destas, 833 aceitaram responder ao módulo de autopreenchimento a respeito de vitimização e assédio”. Os resultados podem ser consultados no infográfico que apresentaremos a seguir e maiores dados como gráficos e análise no site http://www.forumseguranca.org.br/atividades/visivel-e-invisivel-a-vitimizacao-de-mulheres-no-brasil/.

O infográfico evidencia o que estamos discutindo aqui com muita clareza (ressaltamos o uso de termos que não parecem adequados, entretanto os números são representativos). A ofensa verbal, a violência física e psicológica que afetam o emocional da mulher, o desrespeito ao caminhar na rua, o entendimento que ela é um objeto e ‘possui dono’ fica explicitado na pesquisa e tantos outros que mais parecem primitivismo. O pior é o silêncio das mulheres, 52% alegam ter vergonha de denunciar, outras tem receio por dependerem de seus maridos e tantos outros motivos. Ainda temos que em 61% dos casos de violência, o agressor é conhecido sendo 19%, os companheiros atuais e em 16%,osex-companheiros das vítimas. Dados alarmantes são apresentados como, por exemplo, uma mulher morrer a cada uma hora e meia.

A lei Maria da Penha é também um marco, entrando em vigor a partir de 2006, ainda que seja controversa a sua real eficácia. Há estudos sobre o tema, quem quiser aprofundar pode acessar o mapa da violência disponível na internet.

Há tanta coisa envolvida na análise do machismo, como de outros conflitos, que qualquer proposta parecerá reducionista, mas a verdade é que não podemos olvidar da complexidade que envolve o fenômeno e por isso suscita uma perspectiva polilógica de abordagem bem como evidencia que precisaríamos de teses e teses de doutorado com todos os seus critérios para tentarmos vislumbrar uma análise mais adequada. Estamos cônscios desta limitação, entretanto, nossa intenção é salientar a manutenção de status quo e educação ideológica. Como é difícil nos desvencilharmos dessa ‘herança maldita’.

Não nos resta dúvida da falta de respeito e do que é pior da cultura que ainda é disseminada como ideologia machista. Sabemos que para mudar um entendimento carecemos de muito tempo, mas estamos convictas também que se não houver um esforço coletivo não lograremos êxito. Uma outra questão deve ficar clara também: enquanto estivermos disputando poder, com ideologias machistas, elitistas, racistas, não despertaremos para o entendimento de que as divisões nos impedem de enxergar que somos todos seres humanos e que devemos lutar juntos contra um sistema escravizador, alienante e que gera desigualdades para a manutenção do status quo e, por conseguinte, da sua própria permanência.

Poderíamos utilizar inúmeros exemplos mais complexos, mas pensemos em como trazemos uma dita herança comportamental relativamente banal que ratifica o entendimento da mulher como objeto: se uma criança, um menino na escola começa a beijar as coleguinhas, em geral, os pais podem sinalizar que não faça, mas o pai, em especial, fica orgulhoso porque entende que o filho é “homem mesmo”. Pensemos, agora, numa menina agarrando todos os menininhos da sala… Eu não acredito que os pais tenham orgulho de dizer: “minha filhinha, pegando todos”… O que podemos depreender com este comportamento? Não quero ser reducionista, mas se tivermos boa vontade, vamos entender que há uma ideologia machista subsidiando estaconduta dos pais. Se continuarmos educando nossos filhos para acreditarem e se portarem como se a mulher fosse um objeto de desfrute, estaremos corroborando essa lógica perversa.

Somos individualidades e temos diferenças significativas, além das biológicas, genéticas e não queremos ou podemos negar isto, pois seria uma grande bobagem. Não intentamos defender que existem trabalhos de homens e de mulheres, por favor, seria um insulto a nossa inteligência. O que estamos ponderando é que o problema real está na falta de respeito, na maneira mercantilizada que a mulher ainda é tratada. Não somos mercadoria, objeto de uso e de troca dos nossos senhores como no patriarcado, ou apenas corpo em movimento como carne no açougue para escolha e deleite. Se acreditarmos que podemos adquirir aquele pedaço de carne, aquele troféu, se é uma coisa, se possuímos e se é nosso… podemos fazer o que quisermos, inclusive ceifar-lhe a vida.

Somos seres humanos e como tal merecemos respeito e tratamento de igualdade de direitos. Enquanto nossa sociedade não evoluir nestas questões, seremos alvo dos mais absurdos consentimentos. Respeitar o outro é um ato de dignidade. Numa sociedade democrática é preciso buscar este real significado.