Letieres Leite é tema de filme que será exibido nesta segunda (13)

Interessada na educação de jovens, a cineasta Cecília Amado (Capitães da Areia/2011) foi, há cerca de quatro anos, por iniciativa própria, a uma aula inaugural do Rumpilezzinho, projeto que forma jovens músicos e tem à frente o maestro Letieres Leite, criador da Rumpilezz.

Daquele encontro, acabou surgindo o documentário UPB – Tempestade Emocional, que será exibido hoje, às 21h15, na Sala 1 do Espaço Itaú Glauber Rocha, dentro da programação do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Antes, às 19h, no mesmo local, haverá o lançamento do livro Rumpilezzinho – Laboratório Musical de Jovens, de autoria do próprio Letieres.

A sigla UPB, no título do filme, refere-se ao método de ensino desenvolvido por Letieres e aplicado nas aulas que são realizadas na Rumpilezzinho: Universo Percussivo Baiano. “Buscamos ensinar a música popular brasileira a partir da consciência de um conceito estrutural ligado às suas matrizes negras, obedecendo suas regras, métodos e conceitos seculares, em comum acordo com os conceitos de aprendizado musical desenvolvidos a partir da tradição de ensino musical europeia”, diz o músico.

Letieres Leitte criou um UPB – Universo Percussivo Brasileiro para facilitar o ensino de música popular
(Foto: Rafael Martins/divulgação)

O documentário de 28 minutos registra as aulas ministrada por Letieres e outros professores da Rumpilezzinho. Há depoimentos do próprio maestro, de músicos e dos educadores, além de dois jovens alunos, que são acompanhados desde a primeira audição até o encerramento.

Arte e educação

Cecília comenta a importância do trabalho de Letieres com os jovens: “Ele une arte e educação, que, juntos, se tornam um instrumento de formação social. E o Rumpilezzinho se torna mais especial porque, além de formar músicos, forma professores. O jovem que sai dali não se forma apenas músico, mas se forma um cidadão consciente da história afrobrasileira. E isto é muito importante porque toda música popular no continente americano, inclusive o jazz, é de matriz africana”.

Letieres diz que, no seu trabalho de formação de músicos, sempre teve dificuldades em sistematizar o ensino da música popular para que pudesse dar aulas de uma maneira metodológica, organizada. “Comecei então a criar meu próprio método, meu próprio material para dar aulas de música brasileira, quando eu passei uma temporada na Europa”, diz o músico, que deu aulas no conservatório Franz Schubert, em Viena, na Áustria, nos anos 1980.

Para o educador, a comunidade musical acadêmica não se preocupou em desenvolver um método parecido com este que ele adota no Rumpilezzinho. Por isso, normalmente, mesmo quando se ensina música popular, usa-se a metodologia europeia, que é ligada à música erudita. Por ser autodidata, Letieres se sente mais à vontade para criar um método de ensino da música popular.

O criador da Rumpilezz diz que não é só no Brasil que não há um estudo formal rítmico da música popular. “O mesmo ocorre nos Estados Unidos e em Cuba, por exemplo. Em Cuba, passei quase um mês visitando escolas de música e percebi lá a mesma dificuldade, que eu não imaginei que teria. O que proponho, com o UPB, é um acordo entre as metodologias praticadas pela oralidade e as metodologias praticadas pela academia”, diz Letieres.

O livro Rumpilezzinho – Laboratório Musical de Jovens , que será lançado às 19h, se destina, segundo Letieres, a todo o público interessado em música, incluindo aquele que tem formação erudita. “Nelson Ayres (pianista, arranjador e regente) diz, no prefácio do livro, que, se tivesse, no passado, acesso ao método que proponho hoje, não teria algumas dificuldades que tem quando ele trabalha com a música popular”, aponta Letieres.

Informalidade

Mas o maestro baiano prefere dizer que o livro é um registro informal. É praticamente um relato das aulas que dá e das conversas que tem com a coordenadora de pesquisa e conteúdo do Instituto Rumpilezz, Fabiana Marques, e o educador, historiador e músico Fabrício Mota. “É tudo escrito na primeira pessoa, sem grandes pretensões literárias ou didáticas. Mas vai interessar ao músico profissional e a quem está começando a estudar música. Ele vai perceber que não precisa ler e escrever partitura para fazer música popular. Ler e escrever partitura é muito importante, mas não é fundamental”, diz Letieres.

Fabiana Marques comenta o livro: “O Método UPB nos convida a desbravar, didaticamente, fundamentos e metodologias próprias da cultura musical negra estruturantes da nossa música popular. E, ao considerá-las, Letieres nos engaja a repensar nossos modelos de educação musical no Brasil”. No lançamento, serão distribuídos 200 exemplares do livro. O filme e o livro têm patrocínio do edital Natura Musical, com apoio do Governo do Estado da Bahia, por meio do FazCultura.

Fonte: Roberto Midlej, Correio
Imagem destaque: divulgação

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