A (IN)COMPLETUDE da CIDADE

Escutamos cotidianamente uma série de problemas que enfrentamos para viver nas cidades: trânsito e baixa mobilidade, violência urbana, problemas com saneamento básico, falta de acessibilidade e até mesmo doenças, como a dengue, causadas por um simples mosquito.

De fato, viver em uma cidade não é fácil. Temos acesso a tantos serviços, mas ao mesmo tempo temos dificuldade para acessá-los. A cidade, que oferece tudo, também torna tudo mais complexo, mais distante com a ausência de uma mobilidade saudável. Esses foram alguns dos motivos que me levaram a escolher para viver um bairro onde posso fazer as coisas sem precisar pegar o carro.

Mas o que mais me impressiona em Salvador é que vivemos em uma cidade partida, dividida. Uma cidade onde o “jardim” de alguns é bonito, belo e bem cuidado, enquanto no “quintal” dos outros falta muita coisa. Eu me impressiono cada vez que, pela minha janela, vejo prédios luxuosos e casas bem simples, lado a lado. Mas não existe interação. Tão perto e tão longe. Vivem juntos, mas não se comunicam. Assim é a cidade de Salvador, esse paradoxo.

Por um momento, com meu amadurecimento na análise do tema, eu pensava que era possível haver comunicação entre os dois mundos. Triste ilusão. Quando pensamos no subúrbio ou em outras áreas da periferia, a cidade fica mais dividida ainda. Não é incomum moradores das classes nobres de Salvador nunca terem pisado no subúrbio ferroviário. A Igreja do Senhor do Bonfim é quase um limite geográfico. Certamente, quem nunca pisou lá também não teve a oportunidade de ver a orla de São Tomé de Paripe ou desfrutar da vista que trechos da Suburbana nos proporcionam.

 

Milhares de moradores de Salvador postam lindas fotos de viagens pelo mundo, mas não possuem em suas redes sociais uma única foto no Patrimônio Mundial cravado no centro de Salvador…

Também não é incomum ouvir de moradores de Salvador que nunca foram ao Centro Histórico da cidade. Milhares de moradores de Salvador postam lindas fotos de viagens pelo mundo, mas não possuem em suas redes sociais uma única foto no Patrimônio Mundial cravado no centro de Salvador, berço da cidade. Vou ouvir como desculpa que existem muitos pedintes no local ou que é lugar de turista, ou ainda que é violento. Sinto informar que os lugares só sobrevivem com as pessoas. Cidades sem pessoas são cidades-fantasmas.

Salvador é uma cidade tão rica, com um cenário cultural e natural tão encantador, mas não existe somente a ausência de mobilidade urbana. Por vezes percebo uma ausência de mobilidade na alma. Seria o preconceito a impedir essa mobilidade humana? Seriam os graves índices de desigualdades sociais capazes de cindir uma cidade ao meio?

Salvador é uma cidade partida. Os que moram nos bairros ditos nobres, que enfrentam agruras diárias da urbanização como a violência urbana, trânsito e falta de mobilidade, não conseguem mensurar o sofrimento vivido pela população periférica de Salvador vive. Ainda existem locais sem saneamento básico. O transporte que seria remodelado, inclusive com mais conforto nos coletivos, não apresentou a melhora desejada. Marcada pela precariedade nas escolas, saúde, creches e pela ausência de cultura e lazer, a periferia de Salvador sofre com a carência de todos esses direitos sociais. A periferia de Salvador sofre com ausência de renda.

Nós, que moramos nos chamados bairros nobres e urbanizados, longe dos quintais, não estamos aptos a compreender as agruras que vivem as pessoas da periferia. Não entendemos a violência urbana que assola o cotidiano periférico. Não sabemos o que é ter a casa invadida à noite, em meio a uma troca de tiros. Não sabemos o que é perder uma criança de nove anos, que foi alvejada por tiros de balas “perdidas”.

Os motivos dessa desigualdade? São muitos! Precisaríamos de meses de coluna para iniciarmos uma discussão. As soluções? Muita coisa pode ser feita. Inicialmente é preciso entender que a cidade é feita por pessoas e para pessoas, não somente de prédios. Minha sugestão? Vamos começar a nos preocupar com o quintal dos outros e não somente com o nosso jardim. Não estamos sozinhos. Todos nós somos parte de um todo.

 

 

Créditos da imagem: participasalvador.com.br