Educação e Responsabilidade

Nossa sociedade vive momentos delicados, difíceis na verdade. Nossa concepção materialista de ser e lidar com coisas, pessoas e ideias nos tem conduzido a caminhos tortuosos.

As necessidades supérfluas nos têm levado a relações superficiais e, como sugere Baumann, ‘líquidas’, mas o pior mesmo é lembrar de Krishnamurti quando afirmou que não é sinal de saúde estarmos ajustadosa uma sociedade doente. Cabe nos perguntarmos diuturnamente:estamos entãoajustados?

Essas reflexões têm o intento de nos fazer meditar sobre o desequilíbrio mais alarmante nesses últimos dias que foi o baleia azul. Como é possível pensar, estruturar um jogo desse nível? Como podemos sucumbir a algo assim? O que está errado em nossa percepção de mundo e existência para que se viabilize algo tão destrutível e doentio?

Se pensarmos nos principais atingidos, em especial,nossas crianças e adolescentes, poderíamos asseverar queestão carentes de pais presentes e não de presentes de seus pais. Ser provedor não é suficiente, é preciso doar-se, é preciso amar.

Amar é dizer não também, há estudos que comprovam que os jovens gostariam de ouvir não de seus pais como uma forma de comprovar que se importam com eles, pois a sensação que eles têm é que a anuência de seus pais para tudo que desejam corrobora a pouca paciência, intolerância ou pouca vontade de se ocupar com as questões dos filhos, com a vida deles em sua totalidade, de outro modo, assumir a condição plena de serem pais.

Na natureza, a maioriados animais se ocupa de seus filhotes até que possam seguir sozinhos. A humanidade precisa internalizar que não somos meros reprodutores, temos responsabilidades com ‘nossa cria’, não podemos nos comportar como se isso fosse algo de somenos.

O baleia azul é algo doentio, sem dúvida, mas precisamos pensar, também, que algo assim se consolida porque a sociedade está gritando por ajuda. Enquantoacharmos que tudo se resume em acumularmos bens e termos prazeres efêmeros, nossas vidas estarão esvaziadas de sentido e propícias a absurdidades. A Existência requer outras possibilidades.

Assumirmos nossa condição de pais, educadores, encontrarmos sentido para a existência e, por conseguinte, diminuirmos as possibilidades de adoecermos com as enfermidades da moda como ansiedade, depressão, TOC e tantas outras, perpassa pela necessidade urgente de ressignificarmos valores. Jung diz que, em suas pesquisas, quase a totalidade de seus pacientescom mais de 30 anos, só conseguiram avançar no tratamento depois de encontrarem alguma relação com a divindade. É preciso um sentido maior para existir.

Se será a divindade, um trabalho humanitário, uma proposta de melhoria de si mesmo, uma doação para alguém, algo ou uma causa, importa menos, o que se sabe é que atividades com finalidades benéficas auxiliam o bem-estar das pessoas envolvidas. O sentido de existir deve comportar atividades coletivas pois somos seres gregários.

O que temos mesmo é a necessidade de entendermos o real sentido de existir, ser pais e humanos. Acreditamos que para lograr êxito neste empreendimento precisamos refletir sobre o ser que somos, as responsabilidades e implicações que são engendradas a partir deste (re)conhecimento.

Com efeito, façamos uma ponderação profunda proposta por Freud: ‘Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa’? É preciso estarmos equilibrados e saudáveis para desempenharmos bem nosso papel de pais e de humanidade, para educarmos e amarmos precisamos de um encontro anterior com nossa própria interioridade. Essa busca por algo maior e mais duradouro na existência nos conduz a uma possibilidade de equilíbrio e harmonia igualmente maior e mais perene.Cônscios destas necessidades quiçá sairemos da superficialidade que nossas vidas e relações se constituíram.