Educação como (trans)formação

Insistimos na urgência de implementarmos mudanças no nosso contexto educacional, mas, para lograrmos êxito neste intento, precisamos reavaliar e modificar alguns paradigmas sobre o entendimento do que é educar. Isto nos remete à necessidade de darmos sentido ao próprio processo educacional, visto que esta é uma exigência posta na etimologia da palavra ‘ensinare’, ou seja, dar sinal, ter um sentido para a escola / a educação / a sociedade como alteridade e principalmente para o que se aprende. Carecemos de impor novos procedimentos para esta educação configurada como processo de heteronomia (subordinação/dependência), que interfere na formação do ser humano integral. Portanto, devemos fazer entender com profundidade os aspectos concernentes à compreensão do outro no papel desempenhado pela Sociedade, Família, Estado e até mesmo Entidades Metafísicas:

O mundo é o nosso problema e, para compreendê-lo, você precisa entender a si mesmo. Você existe apenas no relacionamento; de outra forma você não existe. Seu relacionamento é o problema; seu relacionamento com a propriedade, com as pessoas, com as ideias ou com as crenças. Esse relacionamento agora é atrito, conflito e enquanto você não entender o seu relacionamento, faça o que fizer, deixe-se hipnotizar por qualquer ideologia ou dogma, não haverá descanso para você. Você se descobre tal como é no relacionamento. O relacionamento é o espelho no qual você pode se ver exatamente como é (KRISHNAMURTI, 1992, p. 40).

Apreendermos nossas relações constitui-se como imprescindível para igualmente abarcarmos o processo cognitivo: nosso agir, ser e conviver no mundo. O entendimento do mundo está condicionado pela nossa mente, pelas relações econômicas, sociais, educacionais e políticas como um todo.

Para ratificar esta proposta de (trans)formação, precisamos, do mesmo modo, avançar na investigação do constructo existente no âmbito da cultura; das relações sociais que valorizam o ter em detrimento do ser e priorizam a aparência; que buscam segurança econômica e reconhecimento social, levando a mente a condicionamentos, programações, limitações e fragilidades. O indivíduo que se encontra envolto por uma compreensão não integralizada, crítica de si mesmo e da realidade pode tornar-se um profissional medíocre, com problemas de ordem relacional, repleto de conflitos endógenos que o impedem de alçar voos mais empreendedores. Nossa educação não nos tem preparado para as adversidades que a vida, o mundo do trabalho, a afetividade e as relações em geral demandam de nós.

Outrossim, partindo do entendimento de que fomos educados para seguirmos regras e autoridades, cabem, neste contexto, algumas ponderações para que possamos refletir: se o processo educativo nos moldes atuais não fomenta o pensar independente e consequentemente não promove a autonomia, como poderíamos esperar que o indivíduo respondesse de forma não condicionada frente a situações adversas? De outro modo, condicionamos e tornamos o indivíduo uma espécie de depositário de fórmulas sociais de procedimentos e acomodações, em especial, no que se refere a currículo, a conteúdos programáticos, a formação em si, dentre outras coisas. Não poderíamos, então, esperar que se posicionasse de forma autônoma no seu processo histórico de formação, frente a situações-problemas, uma vez que foi programado e recebeu ‘pacotes prontos’ no processo formal de educação.

Acreditamos que é papel da educação ‘descondicionar’ o indivíduo, suscitando uma possibilidade de escolher de maneira independente seus caminhos, suas verdades, suas posturas, auxiliando-o no processo de autogestão. A educação precisa focalizar o ser humano, suas angústias e carências para que este possa compreender e ressignificar a interferência do ‘outro’ na sua formação, desenvolvendo autonomia crítica e criativa.

É na construção de um processo educativo voltado para uma proposta de educação integral humanitária-ético-societária que devemos nos alicerçar e fundamentar nossa práxis pedagógica.