Cultura e alienação e os ídolos de pés-de-barro da mídia

Se se perguntar a uma pessoa com 30 anos de idade o que é maculelê, ou porque se diz capoeira de Angola ou capoeira regional, ou, ainda, se candomblé, umbanda e quimbanda são sinônimos ou antônimos, possivelmente não se obterá nenhuma resposta além de um grunhido: O quê? Ou um olhar vazio e aterrorizado de quem busca entender algo do qual não sabe absolutamente nada, além de que capoeira era coisa de vagabundo, malandro, e que candomblé é coisa do diabo.

Interessante é que nesta terrinha de merreca, onde tanto se fala de empoderamento,os sujeitos ditos afrodescendentes, por exemplo, agem em desconformidade com este discurso e assumem o cristianismo católico ou as variadas manifestações pentecostais, neopentecostais, evangélicos, batistas, presbíteros e relegam o culto de seus ancestrais ao qual atribuem a denominação de “coisa do demo”.

No entanto, esta chamada “coisa do demo” vai fazer parceria com os santos cristãos católicos para ter legitimidade perante a sociedade na qual os afrodescendentes estão inclusos. Assim,Oxalá é adorado como Senhor do Bonfim, Oxum é reverenciada como Nossa Senhora da Conceição, Iansã como Santa Bárbara, Obaluayê passa a ser São Lázaro, e daí para adiante.

Toda esta introdução é para tentar compreender o que é mesmo que hoje se anuncia como cultura de um povo que pensa que barulho é música, que palavrão e trocadilhos insanos, pornográficos e pornofônicos são poesia.

A Bahia se perdeu na poeira do tempo e na ignorância à qual o povo foi posto pelo discurso ideológico dos Poderes que formam o Estado, mas que também não passou incólume com a degeneração dos costumes e o empobrecimento ao qual se relegou a tradição e a cultura de todo um povo. Assim, personagens históricos como os mestres Pastinha, Canjiquinha, Bimba e Caiçara, Mãe Senhora, Aninha e Stela de Azevedo foram apagados da memória de um povo sem identidade.

Até mesmo figuras como Cosme de Farias hoje se tornou apenas um bairro onde impera a violência e o tráfico de drogas. O personagem que lhe empresta o nome não é lembrado. E assim se vai na distância do tempo Cuíca de Santo Amaro, Batatinha, Vasconcelos Maia e o jornalista e professor Adroaldo Ribeiro Costa que, entre outras coisas escreveu o hino do Bahia e foi fundador da instituição cultural Hora da Criança.

Quem lembra Waldir Serrão (hoje interno do Abrigo Dom Pedro II), Osvaldo Fahel e a sua morena do Rio Vermelho,Elias Sobrinho e a Sabatina da Alegria, entre outros? O brasileiro, e o baiano em particular, é um povo sem memória. E sem memória, sem história real não há tradição, não há identidade, não há cultura.

O que o turista vem buscar hoje nessa Salvador que um dia já foi a capital do Brasil é uma história que não existe mais, embora ainda esteja impregnada em seus monumentos, nos seus símbolos. Porém, silenciados pelos gritos bárbaros e barulhos de supostos artistas cuja artesó faz diminuir as mulheres, que se dizem empoderadas, mas aceitam ser chamadas de cachorra, vagabundas e admitir que só servem as novinhas.

Lamentável, principalmente que o rádio e a TV calem Chico, Milton, Erasmo, Fagner, Belchior, para dar voz a Psirico, Igor Kanário, Ed City e outros do mesmo naipe; que Nelson de Araújo, Vasconcelos Maia, Jorge Medauar, Hélio Pólvora, por exemplo, nem a edifícios emprestem seus nomes…

One thought on “Cultura e alienação e os ídolos de pés-de-barro da mídia

  • 12 de fevereiro de 2018 at 10:04
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    se desse passado resta alguma memória (provavelmente valeram alguma coisa), desse presente não teremos nenhuma lembrança.

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