A cultura do movimento Hip-Hop com DJ Branco

OPÇÃO 01 - CRÉDITOS ACERVO PESSOAL
Com o Hip-Hop, DJ Branco desperta a maioria de um povo que vive à margem, para os seus direitos e a organização a fim de reivindicá-los.

Antes de descobrir a sua vocação para DJ e militante social, o Rap e o Hip-Hop já tocavam nas veias de DJ Branco. Ele tem uma causa para defender: disseminar um movimento sócio-político-cultural que tem uma base ideológica contestadora e que reivindica melhores condições para a população da periferia.

Foi a partir das rádios comunitárias, em programas de hip-hop, que DJ Branco ingressou nos movimentos sociais na Bahia. Desenvolveu um programa com músicas de Hip-Hop, durante quatro anos, na rádio Comunitária Avançar, do Bairro da Paz e participou de outras ações como um encontro chamado ‘RAPensando as Rádios Comunitárias’.

Branco se envolve em tudo que há sobre Hip-Hop. É integrante do CMA HIPHOP – Comunicação, Militância e Atitude, produtor e apresentador do programa ‘Evolução Hip Hop’, da Rádio Educadora FM 107.5 e colaborador do Portal e da Revista Rap Nacional. Confira esse bate-papo cheio de sons e afirmação no Fatos&Points.

 

F&P – Como surgiu o seu interesse pela música? Algum artista ou acontecimento inspirou você?

DJ Branco – Desde pequeno escutava música e ouvia bandas como Olodum, Ilê Aiyê, Timbalada, Muzenza, Banda Reflexo, por influência do meu tio. Mas me engajei na música de vez a partir do meu primeiro contato com o Rap, em 98. Isso aconteceu de forma involuntária; na época em que eu trabalhava em uma lanchonete. No horário do almoço, costumava assistir a MTV; em um belo dia, liguei a televisão preta e branca e estava passando o vídeo clip da música “Diário de um Detento”, do Racionais Mc’s.  Aquela música e imagens chamaram a minha atenção e comecei a pesquisar, descobrir o que era o Rap e daí me apaixonei.

 

F&P – Em sua opinião, qual a importância dos grupos comunitários que incentivam a inclusão social pelo meio da música e dança?

DB– A música, a dança, a cultura de periferia, em geral, contribuem de forma efetiva para a valorização da identidade, resgatam a autoestima, são verdadeiros instrumentos de conscientização e educação para maioria de um povo que vive à margem e tem os seus direitos violados e negados 24 horas por dia. A cultura é uma válvula de escape, salva vidas e possibilita que a juventude de periferia conheça sobre os seus direitos e se organize para reivindicá-los. A inclusão social só será efetiva no Brasil quando houver a equidade Racial e o fim do Racismo.

 

F&P – Quais são as referências musicais de DJ Branco? O que toca no seu celular?
DB– Costumo ouvir Bob Marley, Racionais Mc’s, Lauryn Hill, Dexter, Mv Bill, Opanijé, Fúria Consciente, Rbf, Paula Lima, Jorge Ben, Juliana Ribeiro, Sandra de Sá, Baiana System e etc.

 

“O movimento Hip-Hop organizado na Bahia está em processo de fortalecimento, porque ainda há muito preconceito e resistência em entender o Hip-Hop como um movimento sócio-político-cultural.”

F&P – O ‘Evolução Hip-Hop’ é um programa comandado por você na Rádio Educadora. Como anda o cenário do Hip-Hop na Bahia? Quais são as iniciativas que se destacam em Salvador?                                

DB – O movimento Hip-Hop organizado na Bahia está em processo de fortalecimento, porque ainda há muito preconceito e resistência em entender o Hip-Hop como um movimento sócio-político-cultural. O Hip-Hop é mais intensificado no interior. Já em Salvador muita coisa se perdeu nos últimos cinco anos; hoje temos mais artistas disputando “palco” do que militantes desenvolvendo trabalho social em sua comunidade; salvaguarda poucas organizações que ainda têm o compromisso social com o movimento. Por outro lado, a cultura está muito forte e acontecem muitos eventos de Rap, o Break vem se fortalecendo a cada dia que passa, o pessoal do grafite sempre na ativa “pintando”… Enfim, o Hip-Hop está e sempre esteve por conta própria, o que falta é o incentivo do setor privado em investir em nós artistas. Um pequeno avanço já existe com muitos artistas, aqui na Bahia, contemplados com os editais abertos pelo governo. Quem sou eu para citar uma iniciativa de destaque? Todas as ações que contribuem para o fortalecimento da cultura e o movimento são importantes.

 

F&P – O que é uma “batalha de Break”? O que é julgado nela e onde acontece aqui em Salvador?

DB – Uma batalha de Break é um espaço de disputa sadia, onde os dançarinos de Hip-Hop mostram o seu talento. A batalha surgiu nos guetos dos Estados Unidos, em uma época que as gangues de bairros diferentes ao invés de se agredirem fisicamente preferiam disputar em uma roda qual era o bairro que tinha o melhor dançarino, qual era a melhor ‘Crew’; dessa forma amenizou-se a rivalidade entre bairros. Hoje os B.Boy’s e B.Girl’s são estrelas no palco.

 

F&P – Como é viver de arte em Salvador? Quais as maiores dificuldades que os artistas do Hip-Hop enfrentam?

DB – Viver de arte em Salvador é muito difícil. A cultura Hip-Hop ainda é discriminada, existe a resistência de setores conservadores em entender os jovens do Hip-Hop como artistas. E por ser formado majoritariamente por jovens negros de periferia ele é criminalizado. A maior dificuldade é conseguir financiamento para manutenção das ações.

 

“A inclusão social só será efetiva no Brasil quando houver a equidade Racial e o fim do Racismo.”

F&P – Em qual contexto o Hip-Hop se tornou importante na sua vida?

DB – O Hip-Hop me fez entender o mundo. Quando você entende o mundo, você aprende a viver nele. Aprendi no Hip-Hop muita coisa que a escola não ensina.

 

F&P – Existe diferença entre os Hip-Hops brasileiros? O que diferencia as vozes, em especial as paulistas e cariocas, das vozes baianas?

DB – A música Rap se adequa aonde ela chega, pois cada região tem a sua cultura, sua identidade e raiz. Aqui na Bahia, por exemplo, muitas músicas trazem elementos da cultura nordestina, africana e afrobrasileira.

 

F&P – Onde e quais são os espaços culturais envolvidos com a cena Hip-Hop aqui em Salvador?

DB – Não existe local específico. A música Rap, o Graffiti, o Break e o DJ de Hip-Hop, ocupam as casas de shows da orla, do centro, estão nas periferias… Enfim, estamos em todos os lugares, ocupando a cidade.

 

“O Hip-Hop me fez entender o mundo. Quando você entende o mundo, você aprende a viver nele. Aprendi no Hip-Hop muita coisa que a escola não ensina.”

F&P – O que é o CMA HIP-HOP – Comunicação, Atitude e Militância?

DB – A Comunicação, Militância e Atitude Hip-Hop – CMA Hip-Hop é um núcleo de comunicação alternativa, produção cultural e mobilização social, que surgiu no ano de 2005, com o objetivo central de potencializar a comunicação do Movimento Hip-Hop e do Movimento Negro/Social. Durante esses anos de caminhada, contribuímos com o desenvolvimento e fortalecimento do movimento Hip-Hop na região Nordeste.  Algumas de nossas atuações: inserimos, em 2007, na programação oficial da rádio Educadora FM 107.5, o programa ‘Evolução Hip-Hop’, que vai ao ar todo sábado às 17 horas, ao vivo. Realizamos, desde 2008, a ‘Mostra Hip-Hop em Movimento’, dentro da programação oficial do VIVA DANÇA – Festival Internacional, onde acontece um fim de semana dedicado ao Hip-Hop com oficinas, mesa redonda, exposições de graffite, shows, transmissão ao vivo do Evolução Hip-Hop e a Batalha de Break – Evolução Hip-Hop (edição nacional), que conta com uma premiação total de R$ 4.500,00 em dinheiro. Outro projeto que estamos desenvolvendo é o ‘Evolução Hip-Hop nos Bairros’, um programa de rádio que vai às comunidades levar lazer e entretenimento, com oficinas, roda de Break. Temos ainda a Mostra Hip-Hop Consciência, com a proposta de circular por vários espaços públicos e cidades do interior com as linguagens do Hip-Hop dialogando com as questões raciais. Somos parceiros colaboradores da Revista e Portal Rap Nacional, dos programas ‘Esfera Hip-Hop’ na rádio 88 FM e ‘Hip-Hop Vai Além’, na WD FM (rádios comunitárias).

 

Créditos da foto destacada: Acervo pessoal

Entrevista original em Jornal Fatos&Points