Bom salário e a famigerada imprensa tupiniquim

A imprensa tupiniquim brasileira, que não pensa criticamente, decidiu denunciar todas as categorias que ganhem um salário não convencional. O problema da economia, para esta imprensa, é que tem “muitas pessoas ganhando altos salários”, em vez de pensar que a crítica deve ser feita em relação aos baixíssimos salários que percebe a maioria dos componentes da população economicamente ativa (PEA) que raramente excede os três salários mínimos.

O complexo de pobre faz com que o brasileiro considere absurdo que alguém tenha direito a receber um salário capaz de permitir uma vida digna, o que os integrantes da PEA não conseguem realizar. O juiz recebeu R$ 35 mil este mês, logo o juiz está além do que se considera decente, que deve ser receber um salário mínimo cujo valor bruto é de R$ 937. Vejamos: R$ 35 mil equivalem a 37,3 salários mínimos brutos. Só que sobre R$ 35 mil incidem 27,5% do famigerado Imposto sobre a Renda o que significa uma mordida da ordem de R$ 9.625, recolhidos na fonte sem dó e sem piedade.

Os também tupiniquins que sustentam a imprensa com seu trabalho que lhes rende salários fantasiados de renda de classe média, e que também são mordidos pelo Leão, não conseguem entender que não se faz uma sociedade de bem-estar com salários miseráveis. Para se ter uma economia forte e uma sociedade saudável é preciso pagar salários que permitam o trabalhador e sua família o acesso aos bens de consumo (roupas, calçados, perfumarias, transporte, moradia, lazer etc.), à educação (o que inclui aquisição de livros, revistas, filmes, teatro, shows, além de cursos especializantes, a exemplo de línguas estrangeiras), saúde (que implica em planos privados, medicamentos, suplementos, boa alimentação, academias etc.).

Mas o que ocorre é que empresários e governos formam o bloco sólido que é sustentado pela inépcia de ambos os grupos incapazes de entender o que é o capital, para que serve e como deve funcionar para tornar uma economia autossustentável e forte o suficiente para garantir o bem-estar de todos os que dela participam direta ou indiretamente. De 1994 até agora 2018 (já anunciado) o valor do salário mínimo nacional não conseguiu saltar a barreira dos mil reais. E notem bem, já são 24 anos desta moeda e o valor bruto do salário continua abaixo de R$ 1 mil.

Nesta condição estão 40 milhões dos trabalhadores que fazem parte da PEA. Fazem parte da população economicamente ativa, no Brasil, 60% da população total do país estimada em 210 milhões de brasileiros. A imprensa tupiniquim não debate estes números, não articula criticamente no sentido de forçar o redimensionamento desta economia. A população brasileira, mesmo aqueles que ganham bem, vive basicamente de salários, soldos, vencimentos que no fundo é uma coisa só: o pagamento pelo uso de sua força de trabalho menos valorizada. E quem vive de salário basicamente paga as contas, que no mais das vezes sempre extrapolam, o que gera saldo devedor para o mês seguinte, e assim sucessivamente.

Mas a imprensa tupiniquim e os seus fantoches reproduzem apenas e tão só o discurso estúpido do poder de que salário gera inflação e que emprenham os índices de desemprego quando colocam como desempregados aqueles que buscam a primeira colocação no mercado a fim de causar impacto na opinião pública. Desempregado é aquele que perdeu o seu posto de trabalho e que busca se recolocar no mercado. Os outros são estreantes que desqualificados para ocupar as vagas disponibilizadas não conseguem elevar o índice de 60% da população nacional que formam a população economicamente ativa.

Então, vamos falar do bom salário do vizinho. Afinal de contas “ou ele é corrupto, ou traficante ou está envolvido em alguma falcatrua. Olha só o carro dele”…