Baianidade em pinturas e esculturas: as várias formas de Goca Moreno

ENTREVISTA OPÇÃO 2
Regionalidade e criatividade, nos painéis de Goca

Madeira, barbante, ferro, aço, resina, pedra, cimento, tinta, tecido… Combinações entre esses elementos e de tudo mais um pouco podem se transformar em obras belíssimas, nas mãos do artista plástico Goca Moreno. Sua autenticidade conquistou o mercado de trabalho com esculturas para a parede em forma de painéis com relevo bidimensionais.

Ele é conhecido como o “Artista de Ilhéus” e seus trabalhos diversos fazem parte de coleções particulares nos EUA, França, Suíça, Alemanha, Itália, Dinamarca, e Brasil. Confira Goca Moreno no Fatos&Points.

 

F&P – Como o Goca se descobriu artista plástico? Houve algum tipo de influência familiar?

Goca Moreno – Sem duvida. Sou de uma família de artistas: minha avó era poetisa, minha tia pianista, meu tio escultor, meus primos (mais novos que eu) também se tornaram artistas. Além da herança genética, desde pequeno eu brincava muito, desenhava muito e isso ajudou bastante para que eu me tornasse um artista plástico.

 

F&P – Quais são suas referências? 

GM – Desde muito cedo, quando me descobri como artista, nos anos 80, com 18 anos de idade, resolvi estudar Artes e comecei a trabalhar de imediato com Mário Cravo Junior. Admiro muito as obras dele e uso como referência até hoje como, por exemplo, nos meus trabalhos com esculturas; quem vê encontra uma influência muito forte de Mário Cravo. Também pesquiso, sempre vou á Salvador e ainda hoje gosto de visitá-lo em suas obras; então ele é uma inspiração muito grande para mim.

 

“Além da herança genética, desde pequeno eu brincava muito, desenhava muito e isso ajudou bastante para que eu me tornasse um artista plástico.”

F&P – Quais são os desafios para manter a sua arte de forma que ela se reinvente a cada coleção?

GM – Eu trabalho com uma quantidade de material muito grande. Gosto de trabalhar muito com séries, mas não passam de cinco a seis trabalhos. Eu conheço artistas que passaram a vida inteira fazendo determinado tema e morreram deixando a série incompleta. Como moro no interior tenho dificuldades de ver exposições ao vivo, então preciso pesquisar muito na internet o tema que eu gosto e conhecer elementos novos. Por exemplo: estou trabalhando com madeira e já tenho algo com o mesmo material; para inovar a criação procuro colocar um risco novo, um detalhe novo, ou de repente uma mistura com um outro material.

 

F&P – Como gostaria de ser lembrado artisticamente falando?

GM – Graças a Deus hoje as pessoas me reconhecem como artista de Ilhéus. Eu gosto disso, me faz bem. Eu quero ser lembrado assim, como o “Artista de Ilhéus”.

 

F&P – Quando sentiu que estava no caminho certo? Existiu um fator, uma situação ou oportunidade que contribuiu para tal?

GM – Até hoje me pergunto se estou no caminho certo. Às vezes pergunto: será que eu não deveria ter feito arquitetura para ter uma qualidade financeira mais segura com um escritório; ou talvez ter feito agronomia? Sempre considerei e achei que tinha feito a coisa certa, mas em alguns momentos como os de baixas vendas, eu repenso a minha escolha. Não fiz a escolha errada, mas se tivesse optado pelo emprego público teria aquela segurança financeira todo mês. Se passo por momentos de aperto é porque escolhi ser um profissional liberal em uma área que são poucos os que se arriscam.

 

F&P – Pollock, artista plástico norte-americano, dizia que todo artista tem um quê de louco ao criar. Essa afirmação procede? Como a sua “versão louca” se manifesta em suas peças?

GM – Isso é interessante. Eu acredito nessa palavra, a minha se manifesta na necessidade de fazer algo novo, de vender alguma coisa nova. Quando eu sinto que estou muito repetitivo, aí eu paro, brinco com os materiais e com as diferentes formas e, enfim, a arte sai.

 

“Foco muito os meus temas no nosso estado Bahia, nas nossas cores vibrantes. Então as pessoas identificam de longe um trabalho meu: “aquilo é um trabalho de Goca”. Acho que as pessoas gostam de ter uma obra minha porque reflete muito o nosso estado.”

F&P – O que é família para você? Ela te inspira?

GM – A família é tudo para mim. Eu sou de casa, gosto de conviver com os meus filhos, minha mulher; vivo-os 24 horas por dia. Até se você acompanhar o meu stand up é um programa em que levo a minha família. Quando chego ao meu trabalho, bato o meu ponto como qualquer atividade normal, meio-dia saio para almoçar com todos em casa. Isso é feito há 30 anos; é raro eu avisar que não vou almoçar em casa para aí pegar algum serviço direto até a noite.

 

F&P – O que as peças de Goca têm que fazem com que as pessoas desejem tanto levá-las para casa?

GM – Eu acho que as cores são o ponto principal. Foco muito os meus temas no nosso estado Bahia, nas nossas cores vibrantes. Então as pessoas identificam de longe um trabalho meu: “aquilo é um trabalho de Goca”. Acho que as pessoas gostam de ter uma obra minha porque reflete muito o nosso estado.

 

F&P – Como o senhor vê a Bahia nos próximos anos?

GM – Espero que mude. Espero que melhore. Estou esperando isso há anos. Eu sempre tenho expectativa, como cidadão, de que vai melhorar. Não tenho uma visão futura, vejo muita dificuldade pela frente se continuar assim.

 

F&P – Para o senhor o que é comunidade? E qual é na sua opinião, a importância dos veículos comunitários?

GM – Isso é importante. Internet, jornal, blog, televisão, rádio. Sem isso a nossa conversa não estaria acontecendo. É necessário para poder divulgar um trabalho, para ser reconhecido na cidade, dependemos de todos vocês.

 

Créditos da foto destacada: Acervo pessoal

Entrevista original em Jornal Fatos&Points