As minhas últimas considerações de um tema inesgotável

Com essa coluna encerro minha participação no Fatos&Points. Durante todo esse tempo, estive aqui escrevendo sobre os mais variados temas de cidadania e direitos humanos. Escrevi sobre temas que permeiam o meu trabalho cotidiano e tentei imprimir análises que são sonegadas pelo senso comum, pela grande mídia ou pela parcialidade da nossa visão.

De fato, viver essa experiência foi especial. Acessar os olhos atentos dos leitores foi gratificante para mim. Agradeço imensamente a oportunidade. Eu escrevi sobre uma infinidade de temas: tortura, presídios, combate às drogas, violência urbana, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua, mulheres, comunidade LGBTTI, racismo, direito à cidade, entre muitos, muitos outros. Não tenho como elencar todos.

Eu não espero que minhas considerações estejam no consciente daqueles que me garantiram um tempo de suas vidas. Com sinceridade, eu gostaria que as colunas que escrevi pudessem ter contribuído para a disseminação de preceitos básicos de uma sociedade mais democrática e igualitária. Ao menos isso.

Por um momento, gostaria de dialogar com vocês para resumir questões básicas de cidadania. Gostaria de lembrar que direito à manifestação e a liberdade de expressão são direitos basilares de um estado democrático. Gostaria de lembrar que repressão policial desproporcional contra aqueles que ganham as ruas para defender seus direitos não acrescenta nada para a construção de um país melhor.

Eu lembraria ainda que é ilusão pensarmos que vivemos em um mundo ideal e que todos temos as mesmas chances e oportunidades. Isso não é o mundo real. O mundo real é duro e cruel com a grande maioria das pessoas. No mundo real, a tão aclamada meritocracia não iguala, ela reafirma um desajuste na relação de oportunidades que se eterniza, caso não seja corrigido.

No mundo real, as pessoas não se colocam no lugar dos outros. Nessa toada, a reclamação por uma piada homofóbica, machista ou racista vira “mimimi”. Gostaria de dizer a vocês: não é MIMIMI. Só representa exagero e falta de humor para quem não sofre na pele, cotidianamente, preconceito e discriminação por ser gay, lésbica, transexual, negro ou mulher. Não venham dizer que o mundo ficou sem graça, antes da indignação dos grupos marginalizados, o mundo com piada machista, transfóbica e racista só era engraçado para quem fazia a piada. Não é engraçado para quem é o motivo da “chacota”.

Durante o tempo que escrevi a coluna, os tempos endureceram. O velho venceu o novo. O preconceito mata todos os dias. O preconceito mata jovens negros periféricos todos os dias. O preconceito mata a população LGBTTI todos os dias. Mata mulheres e pessoas em situação de rua. O preconceito, o discurso de ódio e de exclusão matam. A ideia de marginalização do outro mata e promove violência. Nós não vivemos um mundo de paz. Vivemos uma guerra que não tem vencedores. Falta na nossa sociedade um princípio comum às religiões: solidariedade com o outro.

A divisão do mundo entre mocinhos e bandidos, pessoas boas e ruins, não vai melhorar o mundo e nem garantir menos violência. Todos nós somos parte de um todo. Mas temos uma divisão bem palpável entre as pessoas, de um lado temos pessoas que acreditam que todos os seres humanos merecem direitos iguais e uma vida plena, do outro lado temos o grupo de pessoas que acreditam, talvez por alguma determinação divina, que são melhores que os outros e por isso seus direitos devem ser respeitados, inclusive em detrimento de outras pessoas. Talvez essa seja a divisão que importa. Talvez a gente nem saiba de que lado nós estamos, verdadeiramente. Talvez a gente oscile de lado. Talvez a gente se esqueça que tem um mundo feito de pessoas lá fora.

Talvez, em um ciclo de coisas boas, eu volte a escrever essa coluna um dia. Em um momento de tristeza, eu agradeço pela leitura dessas últimas considerações.

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