As letras e os livros. Um dedo de prosa com Aurélio Schommer

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Observador nato e cuidadoso ao abordar as histórias em suas obras, essas são marcas de Aurélio Schommer.

Um escritor que percorre a ficção e não ficção, ávido por leituras que lhe trazem conhecimentos para continuar a escrever mais e mais. Isso é só um pouco de Aurélio Schommer, um dos fundadores da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira-BA), onde participou da curadoria por cinco edições.

Jornalista e ex-presidente da Câmera Baiana do Livro (gestão 2009/2010), Schommer é autor de obras como “Dicionário de Fetiches” (2008), “História do Brasil vira-lata” (2012). Já possui 16 títulos publicados entre eles romances, relatos históricos e livro de contos. Os mais recentes são “Um homem e seu sonho” (2015), romance biográfico sobre José Rosário Rodeiro, e “O Evangelho segundo a Filosofia” (2016).

O estilo literário que mais lhe encanta é o romance. E sua verve literária vem se alimentando de nomes como Nelson Rodrigues, Capistrano de Abreu, Aldous Huxley.

Confira o nosso bate-papo!

 

F&P – Como surgiu o seu interesse pela literatura? Possui alguma referência? E quais autores contribuíram para sua “identidade leitora”?

AURÉLIO SCHOMMER – Desde o início interessei-me mais pela não ficção, pela arca do conhecimento. A ficção me virá tardia e a grande descoberta foi a obra ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’, de Machado de Assis. Na narrativa, quem me arrebata e constrói em mim uma identidade leitora é Capistrano de Abreu, mas isso como leitor, não como escritor. Para escrever, espelho-me em Nelson Rodrigues, na simplicidade, e essa “conquista tardia da literatura”, nas palavras de Aldous Huxley.

 

“Lê quem quer, isso não deve ser obrigação.”

F&P – Quais as suas memórias de leitor na infância? O que mais buscava em um livro? E hoje, o que procura ao comprar uma obra? 

AS – Lia muito sobre ciências naturais. Buscava informação. Devorava o Almanaque Abril e as enciclopédias. Hoje, compro poucos livros, pois acabo ganhando muitos também, e mal sobra tempo para um livro inteiro. Leio muito teses acadêmicas, nas áreas de história e filosofia, sobretudo, para embasar o que escrevo.

 

F&P – O senhor foi curador da Flica (Festa Literária de Cachoeira). Quais são os desafios de trazer para a grade de programação do evento autores(as) que instiguem o público? Existe algum(a) que queria trazer e não conseguiu?

AS – Se fôssemos julgar as dificuldades, pela quantidade de escritores, seria uma tarefa fácil garimpar nomes, no meio de tantas opções. Entretanto, não é assim que funciona, por uma série de motivos, a começar pela disponibilidade dos autores com potencial para “instigar” o público; mescla-se, até porque o critério não é só esse. Alguém pode ser chamado por ter algo a dizer, ou seja, escreve bem sobre coisas novas sob formas novas, mas ainda não foi devidamente descoberto. Um pode ser chamado por demanda do público; outro, para se encaixar numa proposta de mesa literária… Em resumo, são muito variáveis os fatores e, adicionalmente, de uma primeira escolha até a programação definitiva haverá negativas, desistências, hesitações. Assim, há vários autores que quis trazer e não consegui. Às vezes, é preciso tentar dois ou três anos seguidos até que o autor, vencido pela insistência, aceite. E seguiremos tentando.

 

F&P – Como se dá a relação entre autor/editora? Por que ainda comprar livros no Brasil ainda é tão caro? 

AS – Na verdade, o livro físico teve uma queda de preço de pelo menos 50% em termos reais, nos últimos 10 anos. De mais a mais, os livros estão de graça nas bibliotecas públicas e quase ninguém vai a elas. Portanto, esse argumento do “caro” para livros, me parece apenas uma desculpa, conveniente, para quem acha mais divertido fazer outra coisa. Para mim, não precisaria se desculpar. Lê quem quer, isso não deve ser obrigação. Quanto à relação autor-editora, gosto de comparar com os relacionamentos sexualmente intencionados. Enquanto namoro, é como os namoros entre homem e mulher: flerta-se muito, concretiza-se pouco. As boas editoras, como as mulheres bonitas, são muito assediadas. É preciso ser muito bom, para ser aceito por elas. Enquanto casamento, é uma relação conjugal típica, onde, entre expectativas frustradas e renovação dos encantos que motivaram a união, vai-se levando. Há ainda um paralelo a fazer com a prostituição, pois há editoras que cobram do autor para publicá-lo. Não tenho nada contra a prostituição em si e nem a com o comportamento análogo no mundo dos livros, desde que fique claro o que está sendo negociado.

 

F&P – Qual estilo literário mais lhe encanta? Quais ferramentas o autor deve exercitar ao escrever uma obra? E quais autores(as) mais te inspiram no seu processo criativo?

AS – O romance, disparado. No romance tudo se pode dizer, o que não significa e nem deve significar que se deva dizer tudo. Um romance bem escrito é uma maravilha. Ferramentas? Cada um usa as suas, mas uma haverá de ser fundamental: verossimilhança. Se é não ficção, só afirme o que está referenciado com segurança ou compartilhe com o leitor as dúvidas. Se é ficção, mesmo o realismo mágico há de ser verossímil. Quem me inspira? Todos e nenhum, copo meio cheio e meio vazio. Costumo dizer que todos aprendem sozinho, embora todos aprendam com os outros e vice-versa. Meu processo é o meu processo, peculiar. Gosto de Nelson, mas não escrevo como Nelson, o que é uma frustração; porém, vai que alguém goste do meu estilo… Flertar com leitores é ainda mais difícil do que flertar com editores, mas que se morra tentando, pois a alternativa de fechar-se em si é desoladora.

 

“Flertar com leitores é ainda mais difícil do que flertar com editores, mas que se morra tentando, pois a alternativa de fechar-se em si é desoladora.”

F&P – O prazer de ler pode ser passado de pai para filho(a)? O que os pais devem incentivar para o surgimento de novas gerações de ávidos(as) leitores(as)? 

AS – As pesquisas dizem que sim, o meio tem lá sua influência, como o tem a genética. Porém, felizmente, nada disso estará decretado de véspera, cada caso é um caso. O que deveriam fazer para incentivar? Bem, não sei se o devem, mas respeito o consenso na direção contrária. Eu diria a meu filho: “Olhe, seu pai lê isto aqui. Se você quer ler outra coisa, eu não sei se deve, pode conter mistérios, pode ser perigoso, pode mexer com seus sentimentos. Não sei se deve, mas, afinal, fui criado com liberdade e acredito na sua liberdade de escolha. Comigo, deu certo”. Para um adolescente, deve-se demonstrar que a leitura pode ser conformista ou subversiva. Se for conformista, será abjeta, doutrinação. Se for subversiva, avançamos, e aí talvez eu concorde como alvissareira a avidez pela leitura, avidez que só virá se acompanhada da sensação de estar transgredindo algo.

 

F&P – Qual é a importância dos veículos comunitários de comunicação? 

AS – Tocqueville tem uma tese interessante sobre isso, uma descoberta dele na sociedade dos Estados Unidos da América. E, certamente, os calvinistas terão obtido grande sucesso com a contrapartida, responsabilidade pessoal pela inserção comunitária. Mas não sei dimensionar essa importância. A auto-organização pode ser uma alternativa à tirania ou pode se pôr a serviço dela, de modo que nem tudo que vem da comunidade será necessariamente bom. Porém, evocando Tocqueville e os calvinistas, se deu certo lá onde foi tentado, siga-se tentando, desde que não desviemos para a sociogenética, ou seja, que não eliminemos a responsabilidade pessoal.

 

F&P – Salvador por Aurélio Schommer. O que mais lhe encanta na cidade? 

AS – Ah, é tanta coisa, que não gosto de hierarquizar para não ser injusto com minhas próprias impressões. Encanta-me, sobretudo a forma peninsular, “de frente para o Brasil”, como cunhei em um de meus romances, e o cosmopolitismo. Salvador nasceu cosmopolita e assim se mantém. É a melhor cidade do mundo, meu lugar, palco preferencial de minha existência. Morro de saudades dela quando, sempre contra a vontade, dela me ausento.

 

F&P – Deixe uma mensagem para o Fatos&Points.

AS – Que a literatura, entendida como o conjunto das palavras escritas, traduza a individualidade como oposição à tirania. Que iniciativas como essa não estejam a serviço de outra coisa que não despertar no indivíduo sua emancipação das ideias fáceis, sua independência em relação aos discursos falaciosos e historicistas. Parabéns aos que aí militam. Parabéns aos leitores que desse meio se servem para se tornarem mais capacitados a ser eles mesmos.

 

Créditos da foto destacada: Cristovão Tezza / Acervo pessoal

Entrevista original em Jornal Fatos&Points