A Arte, Talento e a Patifaria de Lelo Filho

Lelo Filho foto de Dedeco Macedo IMG_3342De Fanta Maria a Elisabeta Taylor, personagens com personalidades marcantes e inesquecíveis. Do humor ao drama. A arte de viver, junto com a sua trupe, vários personagens ao mesmo tempo em uma só peça teatral. E, também, de entreter os espectadores com um monólogo ao se multiplicar diversas histórias reais.  Tratar o atual e preocupante cenário social, político e cultural  com a leveza do humor e instigar a reflexão para os que assistem. São estas as atuações admiráveis e de reconhecimento nacional e internacional do ator, produtor, autor e diretor teatral, Lelo Filho.

Em 1987, Lelo Filho fundou junto com o ator Moacir Moreno a Companhia Baiana de Patifaria que hoje possui um repertório de oito espetáculos: Abafabanca, A Bofetada, 3 em 1, Noviças Rebeldes, A Vaca Lelé, Capitães da Areia, Siricotico, uma comédia do balacobaco e Fora da Ordem, tendo se apresentado com a Cia em todo Brasil e no circuito off-Broadway em NY.

No cinema teve participações em 3 Histórias da Bahia (O Pai do Rock, de José Araripe Jr.) e em Tieta do Agreste (de Cacá Diegues).

Confira a conversa com Lelo Filho, aqui, no Fatos&Points.

 F&P – Como Lelo se descobriu ator? Existiram influências no passado? Como a família entrou nesse processo?

Lelo Filho – Primeiro descobri a música através de meus pais, tios e tias. Nasci numa família muito musical. As reuniões familiares eram repletas de alegria através da música. Mas também sempre fui um apaixonado por telenovelas, desde muito pequeno. Admirava atores e atrizes com os olhos vidrados na TV preto e branco que meus pais tinham. Na escola, desde cedo, já participava de festas compondo personagens no Natal, no São João. Aos 11 anos escrevi e dirigi uma peça curta inspirada no filme O Exorcista e vi o poder que aquilo exerceu sobre as crianças que foram assistir na sala de casa. Um dia comprei o ingresso para ver a peça de Shakespeare, Hamlet, e fiquei fascinado. Até que tomei coragem e me inscrevi no IV Curso Livre de Teatro do Teatro Castro Alves, em 1982 e até hoje estou no palco.

 

F&P – Conte para nós, como foi aquela experiência no final do ensino médio ao montar, para uma disciplina de escola, um trecho de Dias Gomes. Poderia dizer se foi dali que começou a sua carreira?

LF – Ali fui estimulado pelo professor que assistiu e me perguntou se eu pensava em ser ator. Comecei a pensar naquela hora e até hoje penso como foi bom ter feito aquela cena.

 

F&P – Como foram aqueles tempos de movimento estudantil e discussão política em plena Ditadura? Como aquelas vivências colaboraram na criação do roteiro de Fora da Ordem?

LF – Foram tempos duros, mas importantes na minha formação como cidadão. Via muita gente passiva com todas as atrocidades que aconteciam, mas o meu envolvimento no Comitê de Defesa da Amazônia e no movimento estudantil me colocou em contato com cabeças pensantes muito interessantes. Um novo mundo se abriu depois que entrei para a faculdade de Ciências Sociais. Professores e colegas de sala foram fundamentais para aprofundar temas proibidos até então. Fora da Ordem é fruto dessas experiências todas e da minha capacidade de observação como ator/dramaturgo também.

“TEATRO. É onde me curo de tudo.”

 

F&P – Em 1982, no Curso Livre do TCA, quais elementos extraídos daquela época, aprendidos no curso, que aprimorou no transcorrer da carreira? E na sua audição? Como foi apresentar “Manguari” de Vianinha?

LF – Fazer um trecho do texto de Vianinha naquele teste tinha muito a ver com a minha posição política diante do mundo. O texto é forte, intenso, duro e repleto de poesia. Quando soube que havia ido bem no teste e entrado no curso, talvez tenha sido o dia em que minha vida de fato mudou. Encontrei um novo foco, uma profissão que amo. E, o mais importante, grandes mestres que me ensinaram tanto para estar em cena até hoje, passados 35 anos.

 

F&P – Quais eram suas inquietações artísticas em 1987? Quais eram as suas pretensões e as de Moacir, ao criar a Cia. Baiana de Patifaria?

LF – A nossa maior inquietação vinha do fato de termos feito Decamerão, um espetáculo de grande sucesso já na nossa primeira experiência em cena. Nos conhecemos no Curso Livre e nos tornamos grandes amigos. Não queríamos parar de trabalhar nunca. A ideia de formar uma companhia de teatro surgiu dessa inquietação: ficar em cena e gerir nossos projetos, nossas ideias. O sucesso da primeira montagem, Abafabanca, acabou nos encorajando a continuar. E assumir todas as responsabilidades que isso trazia.

 

F&P – Como A Bofetada entra na sua história? Como foi o processo criativo? Por que mesmo com o passar das décadas, o espetáculo continua atual?

LF – A Bofetada se transformou em um raro fenômeno que o teatro às vezes cria. Há teses, artigos, críticas e até mesmo um livro prestes a ser lançado, todos se debruçando sobre a nossa trajetória, mas com grande ênfase nesse espetáculo. Ele mudou nossas vidas e a dinâmica de se produzir teatro na Bahia. Acho que encorajamos muita gente a encarar as dificuldades da carreira, a prolongar suas temporadas e melhorar a qualidade das produções. Novos grupos surgiram. A Bofetada é como um marco divisor que influencia muita gente até hoje, atraindo um público altamente heterogêneo, se atualizando e resistindo ao tempo.

 

F&P – Continuando com A Bofetada, qual é o segredo de manter a sinergia e sintonia com os atores mesmo com as mudanças pontuais no elenco? Como se dá o processo de revisão do espetáculo (atualização, novas piadas…)?

LF – É importante a base que o espetáculo tem: os textos fantásticos de três geniais autores. A liberdade criativa que Fernando Guerreiro imprimiu junto com o elenco original também. Mas o espetáculo é quase como uma obra aberta, já que cada um dos 17 atores que integraram a montagem, tiveram e têm a liberdade de recriá-lo sempre. Mais que talento, A Bofetada requer que os atores envolvidos consigam sempre rir juntos da mesma piada. Todos riem e criam juntos. Isso faz o espetáculo ‘respirar’, oxigenar sempre.

 

“A observação é o início de tudo. Vejo coisas, situações, pessoas e penso sempre como aquilo seria interessante dramaturgicamente em cena.”

F&P – Com A Vaca Lelé e Capitães de Areia, a Cia. Baiana dedicou conteúdo específico para o público infanto-juvenil, embora atingisse todas as idades. Por que não houveram mais espetáculos com essa temática? Quais os fatores que dificultam a operacionalização de peças infanto-juvenis?

LF – Basicamente os altos custos e os valores de ingressos que não acompanham a demanda que a manutenção requer. O que na verdade compromete muito a formação de plateias infanto-juvenis. Há uma lacuna grande em termos de produção teatral para esse perfil de público que é gigante. Uma pena.

 

F&P – ‘Fanta Maria’ é uma das personagens mais marcantes do teatro baiano, quiçá nacional. Na sua opinião, quais os elementos que transformaram a personagem em constante lembrança na memória cultural dos quem assistem A Bofetada?

LF – ‘Fanta Maria’ é impregnada de alegria. Até mesmo quando ela está sendo crítica em relação a algo que alguém na plateia não concorde, tudo é feito para que ao menos aquele espectador pense e repense o assunto sempre através do humor. E o humor é muito poderoso para levantar questões que geralmente quem está indo ver uma comédia se surpreende ao se ver confrontado com algum tema. Desde cedo ‘Fanta Maria’ criticou o desprestígio que professores sofrem em nosso país, seja pelos baixos salários como pelas condições bem complicadas de trabalho. O personagem sempre questionou isso. E disso, infelizmente, ninguém na plateia pode discordar. A alegria do personagem saiu do teatro e invadiu as redes sociais, aproximando ainda mais Fanta do público. Adoro fazer e recriá-la a cada remontagem.

 

F&P – Lelo Filho absorveu o Euclides? Ou são personas totalmente diferentes?

LF – São só nomes diferentes para a mesma pessoa. Um deles, o artístico, é o conhecido pelo grande público.

 

F&P – Houve alguma inspiração próxima para alguma personagem nas suas peças? Ou a caracterização acontece por observação do cotidiano?

LF – A observação é o início de tudo. Vejo coisas, situações, pessoas e penso sempre como aquilo seria interessante dramaturgicamente em cena. É fascinante ver que dessa forma o nosso trabalho é infinito. Mas é fundamental o tempo da criação também, a leitura, o estudo, a pesquisa para dar suporte a isso que poderia ser uma mera imitação de alguém.

 

F&P – Quais são os principais desafios para um produtor cultural na Bahia? O que existe e não funciona? O que deveria existir que não é realizado aqui na Bahia?

LF – Estamos cada vez mais abandonados por quem assume cargos que deveriam existir para pensar e repensar as formas de dar suporte para quem tem a coragem de criar, elaborar e se jogar no abismo que é produzir e atuar. O grande inimigo do que nós artistas fazemos é o conforto de um gabinete de um gestor cultural. Ele desconhece o que fazemos, as dificuldades que enfrentamos. Somos nós que estamos na ativa, circulando, inclusive, que somos fundamentais para informá-los sobre como é o fazer teatral, os perrengues que temos que lidar a cada dia e em cada lugar que chegamos. Somos nós que podemos indicar o que precisa ser feito para fazermos mais e melhor. Menos teoria e mais prática, seria de grande ajuda.

 

F&P – Atualmente, o que tira Lelo do sério?

LF – O “despresidente”. Não posso levar a sério o que está sendo feito nesse país. A farsa de eliminar a corrupção através de gente tão comprometida com a própria corrupção.

 

F&P – Como enxerga Salvador para os próximos anos?

LF – Espero que se torne uma cidade mais justa. “Sem justiça, não há paz”, ouvi essa frase num filme há alguns dias e acho que ela define muito o que penso sobre o mundo. E como cidadão do mundo e de Salvador, acho que seria bom se os governantes pensassem sobre o que ela quer dizer.

 

F&P – Qual palavra define Lelo? Por quê?

LF – TEATRO. É onde me curo de tudo.

 

F&P – Deixe uma mensagem para todos que nesses 30 anos de A Bofetada prestigiaram o espetáculo.

LF – A palavra gratidão vem sendo usada de maneira quase exaustiva. Virou quase moda. Sou muito grato a todos, claro. Mas o que diria é que continuem prestigiando o teatro como um todo. Assistam, divulguem, compartilhem, estimulem que crianças e jovens conheçam, cada vez mais cedo, o poder fascinante que o teatro pode produzir e mudar na vida das pessoas.

 

F&P – Como entra Fora da Ordem na sua vida? Quais insatisfações ou inquietações foram decisivas para o sucesso do projeto? Como foi o desafio de estar pela primeira vez sem seus parceiros de trupe em cena?

LF – Só foi possível porque contei com uma equipe que acreditou que eu conseguiria. Vivi momentos de incertezas, insegurança enquanto criava, escrevia, até ter a coragem de mostrar para alguém, para aquela equipe. E a reação de todos foi tão positiva que me encorajou ainda mais em torná-lo um espetáculo que me dá grande orgulho. Fora da Ordem fala basicamente de como a falta de liberdade pode nos afetar. Isso todo mundo entende ou precisa refletir a respeito. A ideia de não podermos permitir que tempos tão terríveis voltem às nossas vidas. E de nunca deixarmos de olhar para o futuro sem olhar de onde viemos, pelo que passamos, aonde estamos, sempre nos perguntando: o que queremos lá na frente?

 

F&P – Qual personagem elege como a mais marcante de sua carreira? Se existe, qual?

LF – Tenho carinho por cada um deles. Desde que me encanto com um texto, ganho o personagem e passo a desenvolvê-lo vou ganhando amor por cada um. Até mesmo em pequenas substituições que fiz pontualmente em montagens da nossa trupe, acabei me apaixonando por aqueles personagens e aquelas falas (Boa Vida e Professor em Capitães da Areia, substituindo os atores Francisco Pithon e Jarbas Oliver). Adoro os personagens que faço em Siricotico pelo desafio que me provocaram, ou os de Abafabanca que me lançaram na Cia Baiana em 1987. Cantar e fazer humor com ‘Amnésia’ em Noviças Rebeldes foi um grande aprendizado. Estar sozinho em Fora da Ordem interpretando quatro personagens também é fascinante. Assim como amo os três personagens que fazia na versão original de A Bofetada, a “Rainha”, “Milena” e “Fanta Maria”, esse último um grande presente dos deuses do teatro, que interpreto desde 1988. Sem esquecer do primeiro de todos, quando fiz um trecho, uma fala de “Manguari”, de Rasga Coração, de Vianinha, no meu primeiro teste de teatro. Ainda consigo sentir a força daquele teste e daquelas falas.

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Créditos da imagens: Dedeco Macedo