Antônio Torres, o cavaleiro das letras e arauto das emoções

Antônio Torres nasceu no pequeno povoado do Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no interior da Bahia, no dia 13 de setembro de 1940. Ainda menino, mudou-se para Alagoinhas para fazer o ginásio. Mais tarde foi parar em Salvador, capital baiana, onde se tornou repórter do Jornal da Bahia. Aos 20 anos, transferiu-se para São Paulo, empregando-se no diário Última Hora. Lá, mudou de ramo e passou a trabalhar em publicidade.

Aos 32 anos, Antônio Torres lançou seu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, que causou grande impacto, sendo considerado pela crítica “a revelação do ano”.  O grande sucesso veio em 1976, quando publicou Essa terra que aborda a questão do êxodo rural de nordestinos em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do Sul, principalmente São Paulo.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 7/11/2013, nela foi empossado no dia 9/4/2014, passando a ocupar a cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar, e que teve como fundador Machado de Assis e, na linha sucessória, Lafaiette Rodrigues Pereira, Alfredo Pujol, Otávio Mangabeira, Jorge Amado, Zélia Gattai e Luiz Paulo Horta. Ele foi recebido na ABL pela romancista Nélida Piñon

Autor premiado, com várias edições no Brasil e traduções em muitos países, Antônio Torres é um dos nomes mais importantes da sua geração, com um obra expressiva que abrange 11 romances, 1 livro de contos, 1 livro para crianças, 1 livro de crônicas, perfis e memórias. Além de dois projetos especiais (O centro das nossas desatenções, sobre o centro do Rio de Janeiro – e que rendeu um documentário para a TV Cultura, São Paulo -, e O Circo no Brasil, da série História Visual, da Funarte, Fundação Nacional de Arte).

Confira a entrevista exclusiva para o Fatos&Points.

Fatos&Points:  Como o senhor descobriu a sua vocação literária? Como as cartas que escrevia para os moradores do Junco e o recitar dos poemas de Castro Alves, em praça pública foram importantes para o processo?

Antônio Torres: Tudo começou no dia em que minha mãe me mostrou um ABC, passando em seguida a me dizer os nomes das letras. Jamais me esqueceria do encantamento que o desenho delas me provocou logo à primeira vista. Arrumadas em filas, no abecedário, as letras formavam um conjunto enigmático. Cada uma, porém, tinha a sua própria identidade e personalidade, como as pessoas e as coisas. E eram elas que davam registro a tudo o que há na Terra e no céu, compreenderia depois, quando aquela senhora chamada Durvalice começou a juntá-las em sílabas – bê-a-bá, bê-e-bé… – e, nos dias seguintes, em vocábulos que passariam ao reino das frases. Ivo-viu-a-uva…

Quando fui para a escola, num mês de março, já sabia ler a cartilha, o que deixou a professora Serafina muito feliz. E mais ainda quando percebeu o meu encanto com as suas aulas, marcadas pela cantoria de hinos e declamação de poemas patrióticos: “Criança, não verás país nenhum como este…” E logo no primeiro 7 de Setembro ela me poria em cima de um palanque a recitar Castro Alves. No ano seguinte, chegou uma mocinha chamada Teresa para inaugurar o prédio de uma nova escola. Dona Serafina lhe cedeu os meninos, ficando com as meninas. E com a professora recém-chegada passamos a ler em voz alta os textos que ela trazia num livrinho chamado Seleta Escolar, assim como, diariamente, fazíamos exercícios de escrita.

Foi, portanto, em um mundo agrário e ágrafo – lá no Junco, hoje a cidade de Sátiro Dias – que as oficinas literárias de uma mãe e de duas professoras primárias iriam forjar o escritor que ora vos fala. Igualmente importantes na minha formação foram os professores, os colegas, a pequena biblioteca do Ginásio de Alagoinhas, a Redação do Jornal da Bahia e da Última Hora paulista, os departamentos de criação das agências de publicidade de São Paulo, Lisboa, Porto e Rio de Janeiro, o convívio com poetas como os baianos Eurico Alves Boaventura e João Carlos Teixeira Gomes e o português Alexandre O’Neill, e ficcionistas como o também baiano Ariovaldo Mattos, e os paulistas Marcos Rey, João Antônio e Ignácio de Loyola Brandão, o carioca radicado em São Paulo Jorge Mautner etc. Sem esquecer muito bater de perna pelo país e pelo mundo. Enfim, o meu processo começou na infância e seguiu – segue ainda – estrada afora.

FP: Como foram os tempos de repórter no Jornal da Bahia? A reportagem agregou novas significâncias na sua prática como escritor?

AT: O jornalismo me ensinou a ver o mundo. E a publicidade me ensinou a contar isso rapidinho.

FP: Em quais searas busca inspiração para suas obras?

AT: O título do meu primeiro romance, Um cão uivando para a Lua, foi inspirado numa música (MyfunnyValentine), tocada pelo trompetista Miles Davis. De todas as searas a que mais me inspira é a musical mesmo.

FP: Como o senhor percebe o perfil em geral do(a) leitor(a) brasileiro? Quais fatores precisariam ser revistos ou modificados para que voltemos a ver mais gerações ávidas à literatura?

AT: Como a escola teve um papel decisivo na minha formação de leitor, tudo o que mais desejo é que a leitura em voz alta e os exercícios de escrita voltem a ser praticados nas salas de aula. Quanto ao perfil do leitor, hoje, me parece moldado pelo imaginário global. Basta vermos o que vem sendo exposto nas livrarias do país, nas quais pouco ou nada vemos do que possamos considerar literatura, de fato. É uma realidade que está mais para os estudos sociológicos do que literários, penso eu.

FP: Como ser uma personalidade do mundo sem perder o Junco no coração? Qual é a importância das raízes no processo identitário?

AT: O Junco não é só a terra onde deixei o meu umbigo enterrado. É o meu melhor personagem. Não posso perdê-lo de vista, para não me perder. Mas já não saberia dizer qual é a importância das raízes no processo identitário. Esta é uma questão que hoje passa por uma certa fluidez, ou por outra: é tratada como coisa velha, sobretudo pelos teóricos do assunto, que nos apontam o não-lugar onde todos nos encontramos.

FP: Por quais ideais luta um Cavaleiro das Artes e das Letras? Existe um pouco de “Dom Quixote” dentro do senhor?

AT: Sim, com toda certeza há um Quixote dentro do cavaleiro aqui, que almeja viver para ver este país realizar o seu sonho de arte e beleza.

FP: Quais escritores são suas inspirações? Quais gêneros mais se identifica?

AT: São tantos. Dos poetas populares da minha infância, cujas histórias eram cantadas ao ponteio de uma viola ao pé de um fogão, à erudição de um João Guimarães Rosa, baixa muita influência no meu teclado. Li (e continuo a ler) um pouco de tudo, ainda que caoticamente. De Machado de Assis ao romance de 30, passando por hispano-americanos, franceses, portugueses, italianos. Mas acabei me identificando mesmo foi com Scott Fitzgerald e Wiliam Faulkner, autores que não têm nada a ver um com o outro. Enfim, queira ou não queira, o escritor é o que lê. E o que eu leio, sobretudo, é romance e poesia.

FP: Quais obras recomendaria para um iniciante leitor(a)? Por que?

AT: Qualquer livro de uma antiga coleção da Editora Ática chamada “Para gostar de ler”. Porque tem exatamente este propósito: o de formar leitores, por meio de textos curtos, levese muito bem escritos.

FP: Deixe uma mensagem para nós.

AT: Faço minha uma mensagem do já citado poeta português Alexandre O’ Neill: “Folha de terra ou papel/ Tudo é viver, escrever”.


*Fotos da entrevista: Acervo Pessoal Antônio Torres (Divulgação)

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