Ana Carla Fonseca: empreendedorismo a partir da Economia Criativa

OPÇÃO 02 - CRÉDITO_ SAULO TOMÉ
O limite para a expansão da criatividade é a capacidade de estimular cidadãos criativos.

“As Cidades Criativas, espalhadas pelo Brasil, comemoram os altos índices econômicos resultantes da Economia Criativa adotada por empreendedores movidos pela Inteligência Criativa.” Essa notícia poderá ser propagada em futuro próximo. E uma das interlocutoras dessa transformação é a referência em economia, cidades e negócios criativos, Ana Carla Fonseca.

Para lidar com essas temáticas, Ana Carla criou a Garimpo de Soluções que desenvolve projetos de consultoria para empresas, assessorias para governos, curadoria de seminários e concepções especiais de inteligência criativa, como “Sampa Criativa” e “Pepitas Criativas”.

Aprofunde seus conhecimentos sobre a Economia Criativa aqui, no Fatos&Points.

 

F&P – Como começou o seu fascínio pelo tema? O que leva a pessoa ser/pensar criatividade em prol das cidades e ao redor do mundo?

Ana Carla Fonseca – Acompanhei a emergência do conceito de ‘economia criativa’ e sua implementação praticada em Londres, onde eu morava quando ele surgiu, em fins da década de 1990; e também em Milão, onde morei por alguns anos, cidade que é reconhecida justamente pela pujança de várias indústrias criativas – Moda, Design, Fotografia, Gastronomia. Trabalho com economia criativa há 15 anos, sou economista e administradora pública, mestre em administração e lidei com inovação por 15 anos, como executiva de multinacionais, em paralelo à minha vida de pesquisadora e escritora. Para poder me sentir suficientemente capacitada a falar de cidades, fiz doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, tendo publicado a primeira tese sobre cidades criativas no Brasil, bem como os primeiros livros a respeito. Um deles, “Cidades Criativas” (ed. Sesi, 2012), foi finalista no Prêmio Jabuti 2013, em Arquitetura e Urbanismo. A esta altura a Garimpo de Soluções, empresa que criei em 2003 para lidar com essas temáticas, já atuou em 29 países, 146 cidades e realizou 444 palestras, dezenas de projetos de consultoria para empresas, assessorias para governos, curadoria de seminários e projetos especiais de inteligência criativa, como “Sampa Criativa” e “Pepitas Criativas”.

 

F&P – Existem diversas definições de Economia Criativa. Qual delas se aproxima da realidade de Salvador?

ACF –Vejo muita confusão a respeito da definição de Economia Criativa, mas de modo geral, no mundo, assume-se que a Economia Criativa se baseia no reconhecimento de que a criatividade se converteu no ativo econômico mais diferencial e fundamental de uma economia e, portanto, de uma sociedade. Ao trabalhar a criatividade como matéria-prima de uma economia, ela se volta às atividades econômicas vinculadas aos dois grandes ícones que, desde pequenos, aprendemos a associar à criatividade e que representam os dois lados do cérebro: de um lado, artes e cultura (todos crescemos com a imagem da genialidade artística) e, de outro, ciência e tecnologia (aquele professor pardal, tão à frente de seu tempo). Ou seja, as indústrias (ou setores) criativas variam de cidade a cidade. Para saber quais seriam os setores criativos mais promissores para Salvador, seria preciso analisar suas vocações, seus talentos e suas ambições.

 

F&P – Como uma cidade se revela criativa e quais fatores apontam para essa característica?

ACF – Em um estudo que organizei em 2008, com a colaboração de um colega dos Estados Unidos, se converteu em um livro digital, gratuito e bilíngue: “Cidades Criativas – Perspectivas”. Ele se baseia em três características gerais, que lhe servem de norteadores. A primeira é a de inovação. Inovações, aqui, são das mais diversas ordens e entendidas como novos produtos, serviços, processos e olhares com valor percebido, resolução de problemas e aproveitamento de oportunidades – de nanotecnologia a tecnologias sociais, do reaproveitamento de resíduos sólidos a tecnologias verdes. A segunda característica são as conexões – entre público e privado, entre áreas da cidade (evitando bolsões de criatividade, em detrimento de uma consideração sistêmica da cidade), entre sua história e sua visão de futuro, entre ela e suas cidades vizinhas ou o resto do mundo.  E, por fim, cultura, em três dimensões: pelo que traz de mais identitário; anímico e simbólico; por seu impacto econômico; e por ajudar a formar um ambiente propício à criatividade.

 

“[…] a Economia Criativa se baseia no reconhecimento de que a criatividade se converteu no ativo econômico mais diferencial e fundamental de uma economia e, portanto, de uma sociedade.”

F&P – O que é Inteligência Criativa? Como ela pode ser aplicada em prol de uma ideia ou negócio?

ACF – Inteligência criativa é a capacidade que a cidade tem de aproveitar o que o conjunto dos cidadãos sabem, veem e desejam. Ela se baseia no protagonismo dessa inteligência coletiva para desenvolver inovações urbanas nas áreas mais diversas e se apoia sobre alguns pilares, como participação civil, o diálogo efetivo e a confiança entre governo e sociedade, e a conciliação de ganhos econômicos das empresas com iniciativas de impacto positivo na cidade. Um exemplo prático de como isso funciona é o Projeto Sampa Criativa, que desenvolvemos em time para a Fecomércio SP, o Sesc e o Senac. Por um lado, ele garimpava experiências urbanas mundo afora e Brasil adentro, para inspirar os cidadãos a pensarem de forma diferente; por outro, coletava propostas dos cidadãos para transformar sua cidade, colocando-se como protagonistas dessa mudança. A mesma lógica é aplicável a empresas, embora com outros públicos (colaboradores internos, consumidores, fornecedores, clientes).

 

F&P – Até qual ponto uma cidade pode explorar seu potencial criativo? Existem limites? Quais podem ser as estratégias de expansão para uma cidade como Salvador?

ACF – Se você imaginar que, na realidade, criativa não é a cidade e sim são seus cidadãos, o limite para a expansão da criatividade de uma cidade é a capacidade de estimular cidadãos criativos e de criar condições para que essa criatividade coletiva se transforme em inovação. Para definir as estratégias é preciso analisar o contexto, verificar os agentes interessados nessa transformação (governo, empresas privadas, sociedade civil) e planejar esse processo.

 

“… o limite para a expansão da criatividade de uma cidade é a capacidade de estimular cidadãos criativos e de criar condições para que essa criatividade coletiva se transforme em inovação.”

F&P – O que o universo empresarial soteropolitano pode aprender com a Economia Criativa? Como as empresas podem ampliar seu ambiente criativo?

ACF – O primeiro passo é conscientizar-se que, em um mundo, no qual, produtos e serviços estão muito padronizados e os ciclos de vida são cada vez mais curtos, investir na criatividade de todos os seus colaboradores é fundamental. Entender que uma empresa não pode ser criativa e inovadora em um ambiente/cidade apático também é importante. Porque, de fato, para vicejar, a criatividade precisa de um ambiente propício a isso. Quão mais criativa for a cidade, mais as empresas se beneficiarão; quão mais criativas forem as empresas, mais a cidade se beneficiará. Afinal, nós somos contemporaneamente cidadãos, trabalhadores e consumidores.

 

F&P – Qual a importância dos veículos comunitários para a Economia Criativa?

ACF – São antenas profundamente voltadas ao que há de mais singular e especial no espaço urbano e em suas dinâmicas – sociais, econômicas, culturais. Sendo assim, têm uma capacidade muito singular de mapear o que não é visível a olhos que alcançam apenas o macro.


CRÉDITO DA FOTO: Saulo Tomé

Entrevista original em Jornal Fatos&Points

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